A atualidade da Escola de Frankfurt

COMO PODERIAM OS TRAÇOS DO FASCISMO DE HITLER SOBREVIVER E REAPARECER EM OUTROS MOMENTOS?

O ponto central não é sobre o fim do fascismo de Hitler, mas quando e como os traços retornarão, inclusive no seio de regimes democráticos, como o que vivemos no Brasil.

 

Por Anouch Kurkdjian

Um dos impulsos críticos fundamentais para a assim chamada Escola de Frankfurt - corrente teórica que se desenvolveu a partir da colaboração de diversos intelectuais reunidos no Instituto de Pesquisas Sociais dessa cidade alemã na década de 20 do século passado - está condensado em uma frase do livro Dialética do esclarecimento (1947), escrito por dois de seus maiores representantes, Max Horkheimer e Theodor W. Adorno. Segundo os autores, sua intenção era, nada mais nada menos, do que “descobrir porque a humanidade, em vez de entrar em um estado verdadeiramente humano, está se afundando em uma nova espécie de barbárie”.

Escrito nos Estados Unidos, onde Horkheimer e Adorno se exilaram após a ascensão de Hitler, e sob forte impacto da catástrofe nazista, o livro tem, como uma de suas teses centrais, a ideia de que o desenvolvimento histórico da razão, tal como ele se deu na civilização ocidental, por estar baseado, entre outras coisas, na dominação da natureza (tanto a exterior, quanto a natureza interior dos indivíduos), tendeu a reverter-se em desrazão, e o progresso técnico tendeu a entrelaçar-se com a regressão social.

Isso pode ser ilustrado se pensarmos, por exemplo, em como engenheiros buscavam soluções técnicas, as mais eficazes e racionais possíveis, para um fim tão irracional quanto o transporte de pessoas para um destino funesto nos campos de concentração nazistas. Ou podemos pensar ainda, em como o homem foi capaz de pisar na lua, mas, em nossa forma de organização social atual, não conseguimos resolver o problema da fome na Terra, mesmo que tenhamos todas as condições técnicas para fazê-lo.

Por esta via, inspirados nas Teses sobre o conceito de história de Walter Benjamin, em particular na oitava tese, segundo a qual o olhar para a história a partir da perspectiva dos oprimidos permite enxergá-la não como um avanço triunfal do progresso, mas como um acúmulo de catástrofes, Adorno e Horkheimer advertiam que eventos atrozes como o nazismo não deveriam ser encarados de maneira ingênua como exceções, acontecimentos contingentes, ou meros “acidentes de percurso”, mas sim como erupções de tendências sociais bárbaras, sempre prontas a explodir quando as condições são propícias.

Sendo assim, ao contrário das interpretações mais correntes a respeito das origens do fascismo, que se concentravam em entendê-lo a partir da figura execrável de Hitler, os pensadores da Escola de Frankfurt achavam mais pertinente se perguntar como era possível que setores amplos da população o tivessem eleito, apoiado e admitido seus atos. Ou seja, segundo tal perspectiva, não é tanto na figura de Hitler que se deve procurar a explicação para o nazismo: o líder nazista é considerado, antes, o agente final de tendências já entranhadas na sociedade alemã. Assim, o mais relevante seria desvendar os traços do clima social que teria favorecido a ascensão de alguém como Hitler. Traços esses que poderiam sobreviver e reaparecer em outros momentos históricos e contextos políticos, inclusive no seio de regimes democráticos.

O exame de como esses elementos, potencialmente autoritários, se manifestavam em indivíduos de um país em situação de democracia formal foi feito na pesquisa que Adorno realizou em conjunto com pesquisadores da Universidade de Berkeley, Estados Unidos, apresentada no livro A personalidade autoritária (1950). Mobilizando um instrumental analítico da psicologia social e da psicanálise, associado a uma visão sociológica mais ampla, a pesquisa articulou, de maneira criativa, métodos quantitativos, como questionários, e métodos qualitativos, como entrevistas clínicas, tendo em vista responder a seguinte questão: que traços de personalidade tornam um indivíduo particularmente suscetível a aceitar ideias e propaganda de cunho antidemocrático?

Advertidos de que, em última instância, o fascismo era um problema de natureza social e política, mais do que puramente psicológica, os pesquisadores, contudo, consideravam que, se os indivíduos têm sua subjetividade formada pela sociedade em que vivem, então seria possível olhar para as personalidades sob uma perspectiva que permitisse ir além do individual e apontasse para aspectos sociais mais gerais.

Uma das descobertas da pesquisa foi que indivíduos mais suscetíveis a aceitar ideias antidemocráticas tinham alguns traços que podiam ser remetidos a uma organização psicológica de fundo comum. Sua característica principal, para além do nível das opiniões, é um modo deformado de perceber a realidade, assentado na estereotipia. Orientado a partir de um senso muito esquemático, o indivíduo potencialmente antidemocrático está propenso a aderir a ideias preconcebidas, rígidas e excessivamente generalizantes. Incapaz de refletir sobre sua experiência, a personalidade autoritária apenas absorve e reitera juízos rígidos e fixos formulados por outrem.

Essencialmente, trata-se de uma incapacidade de se relacionar com a realidade, lacuna que é preenchida por uma série de projeções distorcidas. Propensão a paranoias e teorias da conspiração; divisão simplista do mundo entre bem e mal, personificados em figuras heroicas e em vilões; inaptidão para refletir sobre informações e notícias e formular um juízo autônomo sobre elas; repetição de clichês desprovidos de sentido; aversão ao diferente e ao desconhecido...enfim, estes são alguns dos traços que caracterizariam o modo de pensar (ou melhor, de não pensar) das personalidades autoritárias ou potencialmente autoritárias. Qualquer semelhança com a situação atual do Brasil, infelizmente, não é mera coincidência.

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