Carlos Nobre, convidado especial no Sínodo para a Amazônia

A RELIGIÃO DANDO VOZ À CIÊNCIA, MOSTRA O QUÃO IMPORTANTE É O TEMA REFERENTE AO DESMATAMENTO AMAZÔNICO

“Os negacionistas não são a maioria da população do mundo. A maioria das pessoas respeita a voz da ciência, que é muito sólida.”

 

Da Redação

 

Considerado um dos maiores especialistas do mundo em mudanças climáticas, o cientista Carlos Nobre, pesquisador aposentado do INPE e atualmente pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA-USP), foi o único brasileiro entre os 12 convidados especiais (incluindo o ex-secretário geral da Organização das Nações Unidas, Ban Ki-Moon) para fazer pronunciamentos na primeira semana do Sínodo para a Amazônia.

 

O Sínodo para a Amazônia congregou cerca de 300 pessoas (35 mulheres), entre bispos, religiosos, cientistas, indígenas e membros de diferentes tradições religiosas e foi realizado de 5 a 27 de outubro no Vaticano. O Sínodo foi convocado pelo Papa Francisco há dois anos para debater a ação da Igreja Católica na região e a situação do meio ambiente e dos moradores do bioma, que abrange nove países. O Sínodo para a Amazônia é um meio de consulta do Papa, que, após receber o documento final, poderá usá-lo para fazer indicações ao clero e aos fiéis, em sua exortação apostólica, geralmente publicada alguns meses após o encerramento de uma assembleia como essa.

No instrumento de trabalho para este sínodo, há uma lista de sugestões de como a igreja pode avançar no tema: "identificar as novas ideologias que justificam o ecocídio amazônico, denunciar as estruturas de pecado que são atuadas no território amazônico e indicar as razões com as quais justificamos nossa participação nas estruturas de pecado".

Dom Pedro Brito Guimarães, arcebispo de Palmas, declarou: "A defesa do meio ambiente não é uma questão do Partido Verde, de uma ONG ou de alguém que se encantou. É uma questão vital. Ou nós cuidamos da nossa natureza ou estamos comprometendo a condição da nossa vida, estamos fazendo uma coisa séria: pecando contra o criador".

Afonso Murad, professor de teologia, especializado em ecoteologia, resume o pensamento do papa em questões ambientais: "Segundo o Papa Francisco, a conversão ecológica desperta em nós aquilo que a gente não tinha consciência ainda: que as nossas ações têm impacto socioambiental que se traduz, inclusive, nos gestos relativos ao consumo, ao nosso cotidiano, na economia de água e energia”.

Em seu discurso no Vaticano, Carlos Nobre destacou que só um novo paradigma de desenvolvimento, baseado na biodiversidade da floresta em pé e no saber tradicional, por meio do emprego de ciência e alta tecnologia, pode trazer justiça social e riqueza sustentável para a região. Ressaltou que existe um enorme potencial de usar as tecnologias modernas para isso e desenvolver uma nova forma de pensar e agir, que garanta que a floresta vale mais em pé que derrubada, com o uso das tecnologias modernas que se tornaram acessíveis, amigáveis para as cadeias de produtos da floresta. Alertou, finalmente, o sentido de urgência que precisa pautar essa discussão. O futuro da Amazônia, das pessoas que vivem lá, depende de abandonarmos o modelo atual que destrói a floresta.

Nobre enfatizou que o Sínodo para a Amazônia pode ser uma reação ao chamado “negacionismo climático”, ou seja, aos grupos de pessoas que não acreditam que o aquecimento global seja causado pela ação humana. “O negacionismo climático é uma das nossas maiores ameaças”, disse Nobre ao G1. “Os negacionistas não são a maioria da população do mundo. A maioria das pessoas respeita a voz da ciência, que é muito sólida”. Para ele, os negacionistas representam “uma parcela dos interesses econômicos dominantes nas últimas décadas”.

Carlos Nobre tem uma extensa folha de serviços prestados à pesquisa da Amazônia e, ultimamente, tem revelado uma ameaça que paira sobre a região: “Infelizmente, estamos muito próximos de um colapso da floresta amazônica. A ciência vem apontando isso com muito rigor. A encíclica do Papa Francisco 'Laudato si' mostrou que nossa casa comum está no risco de desabar. E a Amazônia também está próxima do colapso. Ele avalia que, se o total de desmatamento da Amazônia passar de 20 a 25% da área da floresta, será irreversível recuperá-la. A floresta seria substituída por uma savana, tomando 60-70% da Amazônia, segundo ele. Atualmente, cerca de 15% da Amazônia está desmatada. E é enfático: “Estamos muito próximos do ponto de não retorno”. Com o aumento do desmatamento neste ano de 2019, e se o processo não for revertido, ele entende que poderemos atingir essa marca em 20 a 30 anos, correndo o risco de uma enorme crise climática.

Essa é a primeira vez que uma região do mundo é o tema específico de um sínodo e só por isso já se vê a imensa importância global que esse tema tem. A Igreja reconhece a importância do conceito de ecologia integral, que é preciso proteger a floresta em pé e oferecer um modelo de desenvolvimento sustentável para quem vive na Amazônia. A Igreja Católica dá muita importância à questão socioambiental. Mas, além das questões ambientais, também foram tratadas as violências sociais, com padres, bispos e lideranças indígenas denunciando episódios de violações de direitos humanos, de assassinatos, de ataques inclusive a religiosos, discutiram desmatamento e a situação nos garimpos nas terras indígenas.

Aos católicos, um alerta: o tema do pecado ecológico apareceu com muita força nas discussões internas e está sendo pautado no campo da teologia da criação, de maneira especial a questão de que Deus criou o mundo e o colocou sob responsabilidade dos seres humanos. Parece provável que, ao final, o Sínodo para a Amazônia reconheça a existência de pecados ecológicos, defina algumas dessas transgressões e recomende a necessidade de maior consciência deles entre os fiéis.

No encerramento do Sínodo dos Bispos sobre a Amazônia o Papa Francisco afirmou que a região amazônica sofre "todo tipo de injustiça" e cobrou da Igreja maior sintonia com a juventude. "A consciência ecológica vai em frente e hoje nos denuncia um caminho de exploração compulsiva e corrupção. A Amazônia é um dos pontos mais importantes disso. Um símbolo, eu diria", declarou o Papa Francisco.

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