PERCEPÇÃO PÚBLICA SOBRE CIÊNCIA E TECNOLOGIA NO BRASIL

EMBORA SEJA CONSTANTEMENTE ATACADA, A CIÊNCIA POSSUI UM ENORME PRESTÍGIO SOCIAL ENTRE OS BRASILEIROS

“É importante demonstrarmos que a maioria dos brasileiros incentiva o aporte de mais recursos para CT&I.”

 

Da Redação

Nove em cada dez brasileiros acham que o governo deve aumentar ou manter os investimentos em pesquisa científica e tecnológica nos próximos anos, mesmo em momentos de crise. 86% das pessoas crê que a pesquisa científica é essencial para a indústria. Quase o mesmo percentual vê a C&T como um meio para gerar mais oportunidades. 73% dos brasileiros acredita que ciência traz mais benefícios do que malefícios à sociedade. 62% declara ter muito interesse ou algum interesse por C&T e Educação. Os brasileiros têm receio de que o desenvolvimento científico traga consequências negativas (apesar de a maioria não culpar os cientistas por isso) e 83% da população gostaria de ser ouvida em discussões sobre os rumos da ciência e tecnologia.

Estes dados fazem parte da 5ª edição do estudo “Percepção Pública sobre Ciência e Tecnologia no Brasil”, realizado pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), órgão do MCTIC e apresentado na 71ª Reunião Anual da SBPC em Campo Grande.

O estudo foi coordenado por Yurij Castelfranchi, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que destaca a sua percepção sobre os resultados: “Demonstram o prestígio social que a ciência tem entre os brasileiros. As pessoas que atacam a legitimidade da ciência são uma minoria e o fazem por motivos escusos. A grande maioria dos brasileiros apoia a ciência e isso é uma constante observada ao longo de três décadas. A distância entre os brasileiros e a ciência parece ter diminuído nos últimos 30 anos: enquanto em 1987, na primeira edição do estudo, 27% dizia não ter nenhum interesse por ciência, já nesta 5ª edição, apenas 14% declara que não tem interesse pela área”. Outros temas considerados importantes foram medicina e saúde, com 79% de preferência, e meio ambiente, com 76%.

Para o levantamento, foram entrevistadas 2200 pessoas, entre 16 e 75 anos, de todas as regiões do Brasil. O estudo analisou diversas variáveis e testou as correlações. Entre os achados, foi observado que, ao invés de uma polaridade de grupos que apoiam 100% a ciência, de um lado, e os anti-ciência, de outro, identifica-se entre os brasileiros perfis de públicos com posicionamentos e atitudes diferentes e complexas com relação à ciência. “A gente tende a achar que o que falta é conhecimento. E os dados mostram que nem sempre é sobre conhecimento. Engajamento político, moral, religioso pesam muito nas atitudes com relação à ciência”, observa Castelfranchi.

Sobre confiança e credibilidade, a maioria apontou os professores (50%), outra parcela apontou os médicos (37%) e, por fim, outros se referiram a cientistas de universidades ou institutos públicos (36,7%). Jornalistas e religiosos vêm a seguir. Mas apesar da credibilidade em universidades e pesquisadores, 90% dos entrevistados não soube apontar o nome de algum cientista e 88% não se lembrava de nenhuma instituição de ciência, nem mesmo universidades. Somente 5% recordou-se do nome de algum cientista brasileiro. Além disso, grande parte (87%) não conseguiu citar nenhuma instituição brasileira que faz pesquisa científica. Os dados são preocupantes, já que existe uma desordem entre a demanda, pois a maioria manifestou interesse por ciência, mas a realidade concreta dessa propensão social é totalmente escassa. Pior ainda, quando solicitados a apontar um cientista brasileiro importante, a maioria citou o astronauta Marcos Pontes, que não se caracteriza exatamente como um cientista. Neste quesito a percepção do brasileiro parece ter sido obliterada pela visibilidade do astronauta como ministro, haja vista que na mesma pesquisa, realizada em 2015, o cientista mais lembrado foi Miguel Nicolelis.

Também nessas três décadas a assimetria entre homens e mulheres interessados por ciência foi reduzida e hoje o percentual de interessados é praticamente o mesmo entre os dois grupos. Um fator que pode ter impactado é que, da mesma forma, as mulheres alcançaram os homens em nível de escolaridade. “Mas as assimetrias entre pobres e ricos não mudaram nesses anos”, lamenta Castelfranchi. Os brasileiros mais pobres continuam tendo menor nível de escolaridade e menos acesso à ciência.

Márcio de Miranda Santos, presidente do CGEE, destacou a importância da continuidade do estudo, realizado pela primeira vez em 1987, depois em 2006, 2010, 2015, até esta 5ª edição, de 2019. “É necessário manter essa série histórica viva. A evolução desses dados fundamenta políticas públicas e influencia nosso legislativo na hora de definir o orçamento anual”.

Ildeu de Castro Moreira, presidente da SBPC, diz que é preocupante a falta de familiaridade das pessoas com os grandes nomes na área e por não saberem citar o nome de cientistas ou de instituições. “É preciso fazer um programa para inserir esse tipo de conteúdo na escola. Não há um livro que conte a história da ciência no Brasil para esse público. Portugal tem, a Espanha tem." E enfatiza uma questão fundamental “Esse estudo traz resultados qualificados sobre o que os brasileiros pensam da ciência e dos cientistas. Esses resultados podem nortear políticas públicas fundamentais para o país. É importante demonstrarmos que a maioria dos brasileiros incentiva o aporte de mais recursos para CT&I.”

Informações completas sobre a pesquisa “Percepção Pública da C&T no Brasil” podem ser encontradas em:

https://www.cgee.org.br/web/percepcao

 

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