A importância dos satélites científicos para o Programa Espacial Brasileiro

Programa Espacial

 

BRASIL JÁ DESENVOLVEU E OPERA DIVERSOS SATÉLITES DE APLICAÇÕES 

 

 

O Programa Espacial Brasileiro precisa reservar um nicho estratégico para as missões espaciais de caráter científico

 

Por João Braga

 

A aurora da era espacial, no final da década de 1950, ocorreu no contexto de uma corrida estratégica pela supremacia geopolítica entre os EUA e a então União Soviética (URSS). A disputa essencialmente terminou uma década depois, com a Apollo 11, que permitiu ao ser humano pisar pela primeira vez na superfície da Lua, nosso único satélite natural. Esse feito espetacular, ocorrido há 50 anos, só foi possível graças a um salto tecnológico sem precedentes na história, propiciado por um orçamento astronômico (com o perdão do trocadilho) e estimulado pela curiosidade humana acerca do universo que nos cerca. Quem não gostaria de saber como seria a superfície da Lua, se seria possível caminhar lá, que surpresas ela nos guardaria?

Desde então, diversos países vislumbraram a relevância socioeconômica das atividades espaciais, entre eles o Brasil. Satélites que observam a Terra e/ou redirecionam sinais de origem terrestre são hoje imprescindíveis para aplicações como previsão de tempo, monitoramento ambiental, telecomunicações, navegação global (GNSS – “Global Navigation Satellite System”) e atividades militares.

No entanto, o que esses países também perceberam, e o Brasil infelizmente ainda não, é que missões espaciais de cunho científico são tão ou mais importantes para os corações e mentes das pessoas do que missões de aplicações tecnológicas, econômicas ou de defesa. Que cidadão não vibra e não sente orgulho quando seu país aterrissa uma sonda num cometa, descobre água num satélite de Júpiter ou desenvolve um experimento embarcado num satélite que confirma um importante efeito previsto pela teoria da Relatividade Geral de Einstein? Quantos satélites que orbitam nosso planeta são mais conhecidos e venerados do que o Telescópio Espacial Hubble? Quantos experimentos científicos são realizados diariamente na Estação Espacial Internacional?

É essa percepção que parece não existir no Programa Espacial Brasileiro. É importante ressaltar que muitas tecnologias inovadoras são originadas por esses indutores científicos. A ida do Homem à Lua não aconteceu apenas por objetivos geopolíticos; ela só foi possível porque o cidadão norte-americano se empolgou com o caráter desbravador, e de busca por novos conhecimentos para a humanidade, que a missão proporcionou. Os astronautas viraram heróis nacionais muito mais por terem dado um gigantesco salto científico (parafraseando Neil Armstrong) do que por terem ajudado a ganhar a corrida espacial contra a URSS.

As principais agências espaciais de hoje, NASA (EUA), ESA (Europa), CNES (França), ASI (Itália), DLR (Alemanha), JAXA (Japão), ROSCOSMOS (Rússia), CNSA (China) e ISRO (Índia) mantêm robustos programas de missões espaciais científicas. Com isso, não só captam a atenção e o interesse do público, sempre fascinado pelas descobertas científicas e sedento de novos conhecimentos a respeito do universo em que vivemos, como avançam suas tecnologias espaciais com o desenvolvimento que ocorre na esteira do fio condutor científico das missões. Importante lembrar que muitas dessas tecnologias transcenderam as aplicações espaciais e hoje fazem parte do nosso dia-a-dia. No caso das missões Apollo, o avanço técnico que foi obtido para levar ao ser humano à Lua nos propiciou coisas hoje corriqueiras como TV via satélite, purificadores de água, aparelhos eletrônicos sem fio, detectores de fumaça e a técnica de tomografia computadorizada. As câmeras fotográficas que quase todos nós usamos em nossos celulares utilizam detectores eletrônicos de luz desenvolvidos incialmente para telescópios astronômicos, muitos deles embarcados em satélites. Os exemplos são muitos.

O Brasil, através do INPE, já desenvolveu e opera diversos satélites de aplicações, próprios ou em colaboração com a China, nas áreas de coleta de dados ambientais e observação da Terra (sensoriamento remoto). As dimensões continentais do país e o fato dele abrigar a maior parte da maior floresta tropical do mundo fazem com que satélites ambientais e de imagens terrestres sejam de extrema importância estratégica para o desenvolvimento socioeconômico e para a defesa do território. É importante, no entanto, que o país perceba o mais rapidamente possível o caráter também estratégico do desenvolvimento e lançamento de missões científicas. Um exemplo paradigmático é a questão da Anomalia Magnética da América do Sul (SAMA, na sigla em inglês). Grande parte dessa região, na qual o campo magnético terrestre diminui significativamente e permite a precipitação de partículas energéticas a altitudes relativamente baixas, está localizada sobre o nosso país. O estudo detalhado desse fenômeno é crucial para um melhor entendimento da nossa atmosfera e para a modelagem das influências da atividade solar sobre o planeta (o chamado Clima Espacial).

O Brasil é o 13º país do mundo em número de publicações científicas, e a ciência espacial aparece como uma das áreas que mais contribui para isso. O país possui competentes grupos de pesquisa nessa área, mas isso não se reflete no seu programa espacial. Na astronomia, por exemplo, os países desenvolvidos estão, cada vez mais, utilizando dados obtidos por satélites, já que a astrofísica moderna depende de multimensageiros cósmicos, e muitos deles só podem ser observados do espaço. É de grande importância estratégica que o Brasil passe a desenvolver instrumentos espaciais para observar o universo e os coloque a bordo de satélites nacionais, para que nossa astronomia não fique, cada vez mais, defasada e menos relevante.

Em resumo, o programa espacial brasileiro precisa reservar um nicho estratégico para as missões espaciais de caráter científico, a exemplo do que se faz nos países de programas espaciais consolidados ou em consolidação. A importância do avanço científico não deve ser menosprezada, sob pena das atividades espaciais brasileiras não conseguirem o apoio de importante parcela da opinião pública e perderem a oportunidade de contribuir para o avanço do conhecimento humano sobre nosso planeta - especialmente na nossa região - e sobre o universo.

 

João Braga é pesquisador titular da CEA/ INPE

 

 

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