Ato em memória dos 40 anos do assassinato do operário Santo Dias

MEMÓRIAS DA DITADURA

 

JUSTIÇA SOCIAL, LIBERDADE E DIGNIDADE 

 

Por Moacyr Pinto
 

Por inciativa do COMITÊ SANTO DIAS será realizado, em São José dos Campos, o Ato em memória dos 40 anos do assassinato do operário Santo Dias, que nos remete também a fazer memória de outras e outros que, do mesmo modo, tombaram lutando por justiça social, liberdade e dignidade.

O evento será no dia 26 de outubro, das 14h às 18h, no Sindicato dos Condutores (Av. São José, nº 488 - Jd Bela Vista - próximo à Rodoviária Velha)

O COMITÊ SANTO DIAS foi criado por familiares, amigos e companheiros do operário, logo após a sua morte, para continuar a sua luta.

Sem estar vinculada especificamente a qualquer religião ou partido, a atividade será aberta à participação de todos e todas que queiram AGIR E TRILHAR o caminho da união, em defesa da democracia, pela vida e pela paz, com justiça e igualdade social.


 

SANTO DIAS – Vida ceifada

 

Migrante rural-urbano paulista, nascido em 1942, Santo Dias da Silva, pertencia a uma das muitas famílias sem-terra que foram viver como operários na periferia da capital.

Católico fervoroso e com alguma experiência de luta no campo, cresceu em sua militância e clareza política na Pastoral Operária, depois na Oposição Sindical Metalúrgica de São Paulo, na difícil conjuntura da ditadura (1964-85).

Foi assassinado a tiros, por um PM, em 30/10/79, na portaria da fábrica Sylvânia, tentando intervir para que a polícia não levasse preso um companheiro grevista.

 

SER FILHA DE SANTO DIAS NÃO FOI TAREFA FÁCIL

Luciana atribui à força da mãe, Ana Dias, que com 36 anos perdeu o companheiro e amor de sua vida, mas reagiu desde o primeiro momento, invadindo o carro da polícia que ia levar o corpo para o IML, para não deixar que dessem sumiço nele, o núcleo da força que nutre até hoje a sua luta.

A fé e o apoio recebido dos amigos e companheiros, e principalmente de D. Paulo Evaristo Arns, então Arcebispo de São Paulo, foram essenciais, para alguém que diz que nunca sentiu ódio ou desejo de vingança, apenas de justiça, por saber que o policial que matou seu pai foi apenas o agente de um Estado atrelado às classes dominantes.

 

OUTROS MÁRTIRES - Muitos mártires

CHICO MENDES: Líder serin-gueiro, defensor da floresta amazônica, reconhecido internacionalmente. Assassinado a tiros aos 44 anos, em casa, por ordem de um fazendeiro, em Xapuri, no Acre, onde nasceu, em 22/12/1988.

IRMÃ DOROTHY STANG: Freira nascida nos EUA, morta aos 73 anos, defendendo a integridade da floresta amazônica e dos povos originários, em Anapu, Pará, no dia 12/02/2005, a mando de um fazendeiro. Indagada por seus executores se estava armada, Doroty respondeu: - “Eis minha arma!”, mostrando a bíblia!

VLADIMIR HERZOG: Iugoslavo de origem judaica, foi torturado e morto, no dia 25/10/1975, no DOI-CODI/SP, pelos agentes mais extremistas da ditadura.

Jornalista e intelectual de prestígio, era ligado ao Partido Comunista Brasileiro, diretor de jornalismo da TV Cultura. Os torturadores tentaram forjar suicídio por enforcamento. Sua morte contribuiu para o fortalecimento da luta pelo fim da ditadura.

MARIELLE FRANCO: Executada a tiros no centro do RJ, aos 38 anos, com o motorista Anderson Gomes, na volta de uma atividade política, no dia 14/03/2018.

Mulher, negra, vereadora (PSOL), feminista, militante das causas da comunidade LGBT, “cria (da favela) da maré”, talvez possa ser apresentada como um exemplo dos dramas de tantos e tantas mártires dos dias atuais, inclusive pelo fato de ainda não ter o seu assassinato esclarecido e os mandantes punidos

 

SÃO JOSÉ - Nossos mártires

São José dos Campos não fica de fora desse triste inventário de mártires, vítimas da intolerância e da falta de liberdade, essencial para a fruição das diferenças políticas e ideológicas, sem violência.

A Comissão da Verdade, instalada na Câmara Municipal em 2013 e 2014, ouvindo 92 depoimentos e coletando farta documentação, comprovou duas mortes com vínculo direto com a nossa história:

 

JOSÉ ROBERTO ARANTES: Estudante do quarto ano de Engenharia no ITA, quando do golpe de 64, integrou um grupo de 12 alunos que, com 2 professores e alguns funcionários, foi levado por oficiais da aeronáutica para o Comando da Quarta Zona Aérea/SP e depois para o DOPS. Torturado, permaneceu preso por 128 dias. Mesmo sem condenação de nenhuma natureza, todos os alunos foram expulsos (o ITA foi a única escola federal que fez isso). Arantes acabou entrando na Física da USP/66 e militando intensamente no movimento estudantil, depois na resistência armada à ditadura, tendo sido morto no DOI-CODI por volta do dia 4 novembro de 1971. Recebeu diploma post mortem de Engenheiro formado pelo ITA, em dezembro de 2005.

 

JOSÉ PRIANTI JÚNIOR: Tradicional comerciante no bairro de Santana, a partir de março de 1967 foi sequestrado e levado para Caçapava, pelo exército, com escolta armada, sem saber a razão, diversas vezes, em dias alternados aos do seu irmão, vítima do mesmo processo. No dia 24, ao voltar de mais uma sessão de interrogatório e tortura, deixou a escolta esperando no portão, entrou na residência e suicidou-se, com um tiro no ouvido. Confirmados os fatos, a Comissão da Verdade ouviu e gravou depoimento de Flávio José Prianti, filho da vítima, rompendo um silêncio e sofrimento que o atormentou por 47 anos.

 

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