A Nobel e o IgNobel das Mudanças Climáticas

UMA CORTINA DE FUMAÇA ESCONDE A POLÍTICA FALIDA DO BRASIL 

Bolsonaro não confia na ciência e defende que as mudanças climáticas são uma conspiração global

Por Raquel Carvalho

 

Enquanto Greta Thunberg cruzava o Atlântico no veleiro Malizia II emitindo zero carbono para participar da Conferência do Clima a convite da ONU, o presidente Jair Bolsonaro, depois de tentar desconstruir os dados do INPE, justificava em cadeia nacional o estrago do desmatamento e das queimadas na Amazônia. Quando em 20 de Setembro Greta liderava o Global Climate Strike, uma greve de estudantes em 150 países para pressionar políticos e tomadores de decisão para agirem local e globalmente e reduzir emissões, o Brasil era vetado da lista de países que discursariam sobre suas ambições na revisão de metas na Conferência do Clima. Pudera! Greta abraçou a ciência e o ativismo, Bolsonaro cercado de terraplanistas, inflama a destruição da Amazônia. O governo brasileiro que já na década de 90 tinha, pelo menos em discurso, uma agenda ambiental na Assembleia Geral da ONU, simplesmente não teve nada a dizer.

Greta traz o novo, é o sonho de futuro. Líder, mulher, ativista e sem meias palavras, começou seu movimento pelo clima global sozinha com a única certeza de que precisava agir. Na frente do parlamento sueco, Greta iniciou em agosto de 2018 seu protesto solitário, pacífico e embasado em ciência. Como deixa bem claro seu slogan “Unite behind the Science”, Greta Thunberg, a despeito de sua pouca idade, sabe que a ciência já juntou dados suficientes para mostrar que o momento é de crise climática, e que sem mudanças imediatas em todos os níveis, do cidadão aos tomadores de decisão, o planeta, seu futuro e de muitos outros que ainda nem estão por aqui já está condenado.

Bolsonaro traz o passado, é o pesadelo do presente. Parlamentar cansado, machista, homofóbico, violento, há 30 anos orbitando no baixo círculo do poder, o capitão motosserra era até a votação do im-peachment um “famoso-quem?” quando, diante de alguns perplexos espectadores, fez nada menos que apologia ao crime, ao homenagear o primeiro militar reconhecido pela Justiça brasileira como torturador, o Coronel Brilhante Ustra. Bolsonaro não confia na ciência e defende que as mudanças climáticas são uma conspiração global, também odeia índios, quilombolas e os povos da floresta e, juntamente com seu Ministro Anti-Ambiente, acendeu o pavio das queimadas na Amazônia com seu discurso incendiário contra IBAMA, ICMBio, PRODES, Unidades de Conservação, Terras Indígenas, Fundo Amazônia, ONGs ambientalistas e afins. Exagerou tanto na dose que antigos defensores do desmatamento como Kátia Abreu e Blairo Maggi chegaram a puxar suas orelhas.

Greta prova a força do indivíduo e da atitude, discutindo ciência e política nas ruas, na Conferência Mundial do Clima ou em Davos, e nos parlamentos francês, inglês e americano. A ativista incomoda por chamar atenção de indivíduos e governos para a necessidade de ação e mudança: voar menos, consumir menos, se informar mais e entender finalmente que não existe Planeta B. O capitão motosserra, por seu turno, traz o obscurantismo, criando a cortina de fumaça que esconde a política falida do Brasil. Passados nove meses de governo, Bolsonaro não fez nada pelo país ou pelo povo (família não conta), não mudou nada (para melhor), não acabou com a corrupção (segue enrolado nela), mas já contribuiu para a destruição de no mínimo 6.000 km² da floresta amazônica nos primeiros sete meses de 2019.

Recentemente premiada pela Anistia Internacional, Greta também já foi indicada ao Prêmio Nobel da Paz. Se agraciada se tornará em março de 2020 a mais jovem Prêmio Nobel da história. Greta merece. Bolsonaro, por sua vez, poderia ser indicado talvez ao IgNobel, prêmio satírico concedido pela Universidade de Harvard que reconhece desde 1991 realizações singulares em dez diferentes campos. Laureados do IgNobel da Paz incluem Daryl Gates, o pai da SWAT e chefe da polícia de Los Angeles que em 1992 chefiou o combate violento a protestos na cidade com 12 mil prisões, 2.383 feridos e 63 mortos, ou Jacques Chirac, laureado em 1996 por “comemorar” os 50 anos do bombardeio de Hiroshima com testes nucleares no Pacífico. Em todo caso, fica a dica.

 

Raquel Carvalho é Agrônoma (UFAM), Mestre em Ecologia Vegetal (UFPE), PhD em Ciência do Sistema Terrestre (INPE) e atua profissionalmente na Amazônia com pesquisa e conservação desde 2003.

 

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