A gente somos inúteis

O CONSUMO TAMBÉM É UM JOGO DE REALIDADE VIRTUAL
 

Da Redação

 

 

Você pode não lembrar de um antigo cantor, mas até hoje uma de suas canções martela em sua cabeça: “a gente somos (sic) inúteis”. Se aquele cantor envelheceu mal, não seu estribilho. E quem nos diz isso é o professor, historiador e escritor israelense Yuval Noah Harari, que em seus livros, há muito vem prevendo que as máquinas tomarão o lugar de humanos.

Esse momento já pode estar aqui. Harari, em seu último livro, 21 Lições para o Século XXI, explora uma vertente que ele já havia delineado no artigo publicado no The Guardian, “O Significado da Vida em um Mundo sem Trabalho”, que pode ser acessado no link: https://www.theguardian.com/technology/2017/may/08/virtual-reality-relig... .

Harari nos apresenta a uma nova classe de pessoas que deve surgir até 2050: a dos inúteis. “São pessoas que não serão apenas desempregadas, mas que não serão empregáveis”, diz o historiador.

De acordo com Harari, esse grupo poderá ser alimentado por um sistema de renda básica universal. A grande questão então será como manter esses indivíduos satisfeitos e ocupados. “As pessoas devem se envolver em atividades com algum propósito. Caso contrário, enlouquecerão. Afinal, o que a classe inútil fará o dia todo?”.

O professor sugere que os games de realidade virtual poderão ser uma das soluções e faz um paralelo com costumes antigos, que, segundo ele, teve propósito semelhante: “Na verdade, essa é uma solução muito antiga. Por centenas de anos, bilhões de humanos encontraram significados em jogos de realidade virtual. No passado, chamávamos esses jogos de 'religiões'”.

Harari vai ao cerne da questão: “O que é uma religião, se não um grande jogo de realidade virtual desempenhado por milhões de pessoas juntas?” Religiões como o Islã e o Cristianismo inventam leis imaginárias, como “não comam carne de porco”, “repitam as mesmas preces um número determinado de vezes por dia”, “não façam sexo com alguém do seu próprio gênero” e assim por diante. Essas leis existem apenas na imaginação humana. Nenhuma lei natural exige a repetição de fórmulas mágicas e nenhuma lei natural proíbe a homossexualidade ou a ingestão de porco. Muçulmanos e cristãos atravessam a vida tentando ganhar pontos em seu jogo de realidade virtual favorito. Se você reza todos os dias, você obtém pontos. Se você esqueceu de orar, você perde pontos. Se, no final da sua vida, você ganhar pontos suficientes, depois de morrer, você vai ao próximo nível do jogo (também conhecido como o paraíso). Como as religiões nos mostram, a realidade virtual não precisa ser encerrada dentro de uma caixa isolada. Em vez disso, ele pode se sobrepor à realidade física. No passado, isso foi feito com a imaginação humana e com livros sagrados, e no século XXI pode ser feito com smartphones.

A ideia de encontrar um significado na vida ao jogar jogos de realidade virtual é, evidentemente, comum não apenas às religiões, mas também às ideologias seculares e estilos de vida. O consumo também é um jogo de realidade virtual. Você ganha pontos adquirindo carros novos, comprando marcas caras e tendo férias no exterior, e se você tiver mais pontos do que todos os outros, você sente que ganhou o jogo.

Harari faz uma analogia com uma forma de diversão que existe ainda em alguns países: “As brigas de galos eram tão importantes para os balineses que, quando o governo indonésio declarou a prática ilegal, as pessoas ignoraram a lei e se arriscavam à prisão e a multas pesadas. Para os balineses, as brigas eram 'jogo profundo' – um jogo confeccionado que é investido de tanto significado que se torna realidade. Um antropólogo balinês poderia, sem dúvida, ter escrito ensaios semelhantes sobre futebol na Argentina, Brasil ou no judaísmo em Israel.”

Harari, um israelense que não poupa críticas a Israel e ao judaísmo, afirma: “Em Israel, um percentual significativa de homens judeus ultraortodoxos nunca trabalhou. Eles passam toda a vida estudando escrituras sagradas e realizando rituais de religião. Eles e suas famílias não morrem de fome, em parte, porque as esposas muitas vezes trabalham, e em parte porque o governo lhes fornece generosos subsídios. Embora geralmente vivam na pobreza, o apoio do governo significa que os subsídios nunca faltam para as necessidades básicas da vida.”

“Você não precisa ir a Israel para ver o mundo do pós-trabalho. Se você tem em casa um filho adolescente que gosta de jogos de computador, você pode realizar sua própria experiência. Fornecer-lhe um subsídio mínimo de Coca-Cola e pizza e, em seguida, remover todas as demandas de trabalho e toda a supervisão dos pais. O resultado provável é que ele permanecerá em seu quarto por dias, colado na tela. Ele não vai fazer qualquer lição de casa ou tarefas domésticas, vai ignorar a escola, ignorar as refeições e até mesmo ignorar os chuveiros e dormir. No entanto, é improvável que ele sofra de tédio ou uma sensação de sem propósito. Pelo menos não no curto prazo.”

Conclui Harari: “Em qualquer caso, o fim do trabalho não significará necessariamente o fim do significado, porque o significado é gerado pela imaginação em vez de pelo trabalho. O trabalho é essencial apenas para o significado, de acordo com algumas ideologias e estilos de vida. Os escravos ingleses do século XVIII, os judeus ultraortodoxos atuais e as crianças em todas as culturas e eras encontraram muito interesse e significado na vida, mesmo sem trabalhar. As pessoas em 2050 provavelmente poderão jogar jogos mais profundos e construir mundos virtuais mais complexos do que em qualquer momento anterior da história. E quanto à verdade? E a realidade? Realmente queremos viver em um mundo no qual bilhões de pessoas estão imersas em fantasias, buscando objetivos criativos e obedecendo leis imaginárias? Bem, goste ou não, esse é o mundo em que vivemos há milhares de anos.”

 

 

 

 

 

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