A cooperação Brasil e China para a produção de satélites de sensoriamento remoto

APÓS 30 ANOS DE CBERS, O QUE ESPERAR PARA O FUTURO?

Por Fernanda Soares


 

A busca por meios mais eficazes e econômicos de observação da Terra motivou os pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais - INPE a desenvolver os satélites de sensoriamento remoto. Mas os altos custos dessa tecnologia deixavam o Brasil dependente das imagens fornecidas por equipamentos de outras nações.

Foi então que em julho de 1988, após dois anos de negociações, os governos do Brasil e da China assinaram um acordo de parceria envolvendo o INPE e a CAST (Academia Chinesa de Tecnologia Espacial) para o desenvolvimento de um programa de construção de dois satélites avançados de sensoriamento remoto, denominado Programa CBERS (China-Brazil Earth Resources Satellite, Satélite Sino-Brasileiro de Recursos Terrestres).

Com a união de recursos financeiros e tecnológicos entre o Brasil e a China, num investimento superior a US$ 300 milhões, foi criado um sistema de responsabilidades divididas (30% brasileiro e 70% chinês), tendo como intuito a implantação de um sistema completo de sensoriamento remoto de nível internacional.

Na época, o governo chinês traçava diretrizes de desenvolvimento intensivo de vários setores, entre eles a indústria e a área espacial. No Brasil, o avanço nos diversos programas de satélites da Missão Espacial Completa Brasileira – MECB incentivava as pesquisas na área.

Inicialmente, o Programa CBERS contemplava o desenvolvimento e construção de dois satélites de sensoriamento remoto que também levassem a bordo, além de câmeras imageadoras, um repetidor para o Sistema Brasileiro de Coleta de Dados Ambientais. Os CBERS-1 e 2 são idênticos em sua constituição técnica, missão no espaço e em suas cargas úteis, desenvolvidos para atender às necessidades dos dois países.

Com o sucesso dos dois primeiros satélites, em 2002 foi assinado um acordo para a continuação do programa CBERS, com a construção dos satélites CBERS-3 e 4, com novas cargas úteis e uma nova divisão de investimentos de recursos entre o Brasil e a China, 50% para cada país.

O programa CBERS foi orçado em 150 milhões de dólares para o desenvolvimento, construção e o lançamento dos dois primeiros satélites. O custo estimado de cada satélite foi da ordem de US$ 50 milhões. Até o lançamento do CBERS-4, a união de recursos financeiros e tecnológicos entre o Brasil e a China investiu em torno de US$ 300 milhões.

“Se considerarmos o objetivo básico de desenvolver sistemas espaciais (satélites) em parceria, atendendo a uma série de requisitos formulados em conjunto, nossa participação no programa é satisfatória. No entanto, ela poderia ser mais ampla, explorando oportunidades junto à China que não exploramos por carência de recursos e de pessoal”, analisa Petrônio Noronha de Souza, ex-diretor de Política Espacial e Investimentos Estratégicos da AEB, atual é Coordenador de Gestão Científica e Tecnológica do INPE.

Ao longo desses 30 anos, as equipes de desenvolvimento do CBERS passaram por diversas dificuldades, desde o entendimento da língua, falta de transferência de tecnologia, até o método de trabalho das equipes. “Hoje as equipes se conhecem muito, a maneira de trabalhar está muito mais fácil”, diz Amauri Montes, Coordenador Geral de Engenharia e Tecnologia Espacial do INPE.

Ele ainda comenta: “Atualmente a sigla CBERS é muito bem-vista. O CBERS foi o carro-chefe dentro do INPE nestes anos (e quase não houve espaço para outros projetos, devido à limitação de recursos). Agora está na hora de fazer uma análise completa do programa espacial e traçar novas estratégias, inclusive sobre o CBERS.”

Petrônio Noronha Souza, servidor do INPE há mais de 30 anos, já ocupou o cargo de chefe do Laboratório de Integração e Testes – LIT (laboratório responsável pela montagem, integração e testes dos satélites desenvolvidos pelo Programa Nacional de Atividades Espaciais no INPE) e atualmente Coordenador de Gestão Científica e Tecnológica, também do INPE. Ele explica que o desenvolvimento do CBERS, na parceria com a China, vai muito além da construção de satélites. “A parceria entre o Brasil e a China na área espacial tem um escopo que vai além do programa CBERS. No entanto, o CBERS tem sido a fundação sobre a qual as outras vertentes se apoiam, embora não estejam diretamente vinculadas a este programa. Como exemplo, temos uma cooperação na área científica, voltada para o clima espacial, e outra na área educacional, com a formação de pessoal em nível de pós-graduação na China em temas da área espacial. Acreditamos que esta parceria sempre foi vantajosa para as duas nações, devendo prosseguir. No entanto, seria natural pensar que ela possa evoluir em bases e formatos distintos dos atuais, refletindo tanto a evolução técnica, quanto a política, econômica e estratégica de cada uma das nações parceiras.”

O futuro dessa parceria ainda é incerto. O Jornal do SindCT contatou a Agência Espacial Brasileira, ques-tionando sobre novos contratos com a China, mas não obteve retorno. Para Petrônio, “por tradição, e em razão do próprio nome, o programa CBERS sempre explorou o sensoriamento remoto, no caso óptico. Em negociações recentes, ficou claro haver a possibilidade de desenvolver, em conjunto, missões de observação da Terra em outros campos de tecnologia, como o radar. São alternativas em estudo, não havendo ainda acordos firmados a respeito. Além disso, o escopo da parceria, como já mencionado, envolve potencialmente outros ramos da tecnologia espacial, havendo inclusive referências às áreas de telecomunicações e meteorologia, o que atesta existir, ao menos em tese, o interesse na produção de outros tipos de satélites.”

Marco Antonio Raupp, ex-diretor do INPE, da AEB e ex-ministro de C&T, lamenta a lentidão da parceria Brasil-China, devido aos baixos recursos e espera que isso seja revertido e uma nova família de satélites, mais avançados, seja desenvolvida: “me sinto frustrado, às vezes, pelo andamento dessa parceria ter sido muito devagar. Mas essa é a situação da Ciência e Tecnologia no país, com muitas dificuldades de financiamento. Poderíamos ter acelerado a construção de satélites no Brasil. Para o futuro, devemos ir além da fabricação de satélites de sensoriamento remoto. Deveríamos negociar condições de fazer satélites tecnologicamente mais avançados. Sou francamente favorável a isso.”

 

A parceria Brasil-China já realizou o laçamento de cinco satélites da família CBERS. Todos os lalnçamentos foram realizados no Centro de Lançamento de Taiyuan, na província chinesa de Shanxi.

O primeiro satélite CBERS-1 foi lançado no dia 14 de outubro de 1999.

O satélite CBERS-2 foi lançado no dia 21 de outubro de 2003.

O lançamento do CBERS-2B ocorreu no dia 19 de setembro de 2007.

O CBERS-3 foi lançado em 9 de dezembro de 2013.

O lançamento do CBERS-4, inicialmente previsto para dezembro de 2015, foi antecipado para 07 de dezembro de 2014.

 

Pra que serve o satélite CBERS?

 

Dentre as diversas aplicações de um satélite de sensoriamento remoto podemos destacar:

 

Vegetação: identificação de áreas de florestas, alterações florestais em parques, reservas, florestas nativas ou implantadas, quantificações de áreas, sinais de queimadas recentes.

Agricultura: identificação de campos agrícolas, quantificação de áreas, monitoramento do desenvolvimento e da expansão agrícola, quantificação de pivôs centrais, auxílio na previsão de safras, fiscalizações diversas.

Meio ambiente: identificação de anomalias antrópicas ao longo de cursos d´água, reservatórios, florestas, cercanias urbanas, estradas; análise de eventos episódicos naturais compatíveis com a resolução da câmera, mapeamento de uso do solo, expansões urbanas.

Água: identificação de limites continente-água, estudos e gerenciamento costeiros, monitoramento de reservatórios.

Cartografia: dada a sua característica de permitir visadas laterais de até 32º a leste e a oeste, em pequenos passos, possibilita a obtenção de pares estereoscópicos e a consequente análise cartográfica. Essa característica também permite a obtenção de imagens de uma certa área no terreno em intervalos mais curtos, o que é útil para efeitos de monitoramento de fenômenos dinâmicos.

Geologia e solos: apoio a levantamentos de solos e geológicos.

Educação: geração de material de apoio a atividades educacionais em geografia, meio ambiente e outras disciplinas.

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