A maior descoberta da Era Espacial

Viagem à Lua completa 50 anos

Relacionar a viagem lunar ao advento de travesseiros, roupas antichamas e têncis com amortecimento é apequenar uma das maiores realizações de nossa civilização

 

Por José Bezerra Pessoa Filho
 

 

O pouso na Lua se tornou efeméride na história da civilização humana, sendo resultado do conhecimento científico acumulado, da evolução tecnológica e da geopolítica do pós-guerra, que também proporcionaram o nascimento da Era Espacial. Desde o Sputnik (1957), quase nove mil objetos foram lançados ao espaço, dos quais 2.100 se encontram em operação.

Os satélites de posicionamento global são essenciais na navegação terrestre, aérea e marítima. Do espaço, satélites monitoram a saúde do planeta medindo as concentrações de dióxido de carbono, metano, vapor d´água e ozônio ao longo da atmosfera terrestre. Outros satélites medem as variações do campo gravitacional terrestre, fornecendo as quantidades de água nos lençóis freáticos e nas calotas polares.

Com os satélites também é possível monitorar a temperatura e a salinidade dos mares. A 35.700 km de distância, satélites meteorológicos produzem imagens da Terra a cada 10 minutos, com resolução de 1 km. Dessa mesma distância, 500 satélites de comunicações transmitem sons e imagens entre quaisquer pontos da superfície terrestre. Outro benefício da Era Espacial é o acompanhamento, via satélite, do processo migratório de diferentes espécies. Os satélites de sensoriamento remoto, a 800 km da superfície terrestre, identificam queimadas e desmatamentos nos biomas nacionais e mostram a magnitude de desastres ambientais como os Mariana e Brumadinho.

Para além da órbita terrestre, foram enviadas centenas de espaçonaves não tripuladas com o intuito de explorar o Sistema Solar. Exploramos asteroides e enviamos espaçonaves ao Sol. Em 1977 lançamos as espaçonaves Voyager 1 e Voyager 2 para explorar Júpiter, Saturno, Urano e Netuno. Suas trajetórias as levaram ao espaço interestelar, onde as chances delas serem encontradas por uma civilização inteligente são remotas. Mesmo assim, elas carregam um disco contendo informações sobre nossa civilização. Continuamos a nos comunicar com elas, apesar de um sinal, viajando à velocidade da luz, levar entre 16 e 20 horas para alcançá-las.

O telescópio espacial Hubble registrou o nascimento e morte de estrelas e determinou a idade e a taxa de expansão do Universo. Desde 2012, o jipe robótico Curiosity se move na superfície marciana à procura de sinais de vida, sendo auxiliado pela sonda Insight e por satélites. Usando os telescópios identificamos, em 1995, o 51 Pegasi b, primeiro planeta fora do Sistema Solar. Com o aprendizado obtido lançamos o telescópio espacial Kepler, que, entre 2009 e 2018, identificou 4.849 candidatos a exoplanetas, 1.895 confirmados por observações complementares. Um deles, Proxima b, situa-se em uma região de seu sistema planetário que o torna compatível com a existência de água líquida e, quem sabe, de vida. Lançado em 2018, o telescópio espacial Tess identificou mais 871 candidatos a exoplanetas, 21 já confirmados. Nessas e noutras missões, buscamos entender o nosso passado e, quem sabe, mudar o nosso futuro.

Por tudo isso, relacionar a viagem lunar ao advento de travesseiros especiais, roupas antichamas e tênis com amortecimento é apequenar uma das maiores realizações de nossa civilização. Tais exemplos são tentativas vãs de escapar ao fato de que a exploração é parte da natureza humana. E foi assim, que, ao orbitarem a Lua na noite de Natal de 1968, os astronautas da Apollo 8 realizaram A Maior Descoberta da Era Espacial: a Terra. Bill Anders, autor da foto sentenciou: “viemos de tão longe para explorar a Lua e descobrimos a Terra.” Coube a Caetano Veloso oferecer a trilha sonora dessa icônica imagem, por meio de sua linda composição Terra.

Desde então, os americanos assistiram ao aumento exponencial na quantidade de leis ambientais, que levou à criação da Agência de Proteção Ambiental (1970). Na época, o movimento ambientalista já questionava a sustentabilidade do modo de vida dos 3,5 bilhões de terráqueos. Anteriormente, Rachel Carson publicara Primavera Silenciosa (1962), no qual alertava para as consequências do uso de pesticidas, que, aliás, vitimaram 500 milhões de abelhas no Brasil recentemente. Em 1968 a Suécia sugeriu à ONU uma conferência para avaliar os efeitos da ação do homem sobre o meio ambiente. Dessa proposta resultou a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano. Controle da poluição ambiental e a necessidade de diminuição da pobreza foram duas das conclusões do encontro ocorrido em Estocolmo em 1972.

Em fevereiro de 1990, após passar por Júpiter e Saturno, a Voyager 1 se encontrava a seis bilhões de quilômetros da Terra, à 60.000 km/h, quando recebeu comando para realizar um ensaio fotográfico do Sistema Solar. Em uma das imagens apareceu um pálido ponto azul. Era a Terra com seus 5,2 bilhões de tripulantes a bordo.

Quando da queda do Muro de Berlim (1989), havia 60 mil ogivas nucleares no planeta. Atualmente são 15 mil, 90% divididas entre EUA e Rússia, onde ocorreu um acidente nuclear no mês de agosto. Hiroshima e Nagasaki são lembranças dessa tecnologia. Em Um Mundo ou Nenhum (1946), cientistas concluíram não existir defesa contra essas armas. Há ainda 500 reatores nucleares, cujos riscos podem ser avaliados na série televisiva Chernobyl e ratificados por Fukushima (Japão, 2011).

Arthur Clarke dizia que os dinossauros foram extintos por não disporem de tecnologia espacial. Entretanto, em 25 de julho um asteroide do tamanho de um campo de futebol passou a 73.000 km da Terra, à 86.400 km/h. Alguns especialistas afirmaram que a colisão teria o efeito de uma bomba atômica, enquanto outros explicaram por que não o identificamos antes. Seu nome é mundano: 2019 OK, mas os seus riscos eram de outro mundo. Dias depois as notícias assustadoras vinham da Global Footprint Network, dando conta de que a partir de 29 de julho passamos a consumir do planeta aquilo que ele não pode nos oferecer de modo renovável até o final deste ano. Essa saga teve início em 1970 e, desde então, passamos a viver do cheque especial, cujos juros vêm na forma de secas, incêndios, inundações, furacões e outras tragédias ambientais.

Uma visita ao Museu do Amanhã, Rio de Janeiro, revela que: “Desde 1950 alteramos mais o planeta do que nos últimos 200 mil anos.” Nosso desenvolvimento ocorreu às custas de combustíveis fósseis, que causaram elevação da concentração de dióxido de carbono na atmosfera. Como resultado ocorreu o aumento da temperatura média do planeta, que levou ao derretimento das calotas polares, à elevação do nível dos mares e a extremos climáticos. Aumento populacional e hábitos alimentares exigiram o uso de agrotóxicos, que contaminaram solo, ar, lençóis freáticos, rios, mares e, finalmente, nós mesmos! O Brasil possui 220 milhões de cabeças de gado e produz 240 milhões de toneladas de grãos por ano. Além de elevar a emissão de gás metano, a produção de gado, com a produção de grãos, acarreta o desenfreado desmatamento da Amazônia e do Cerrado, responsável pela maior contribuição à emissão de dióxido de carbono no Brasil. A Water Footprint Network registra que a produção de 1 kg de carne requer 15.415 litros de água, enquanto o 1 kg de soja 1.644 litros. A água, portanto, constitui a maior riqueza do Brasil, sendo seu ciclo fortemente afetado pela destruição dos biomas nacionais. Não satisfeitos, contaminamos mares e rios com plásticos, que já chegaram ao Ártico e à água fornecida nas torneiras de nossas casas.

Em 13 de agosto a Sociedade Americana de Meteorologia e a Agência Climática dos EUA publicaram relatório, do qual participaram 475 cientistas de 57 países, informando que a emissão de gases geradores do efeito estufa atingiu seu recorde em 2018. Ou seja, continuamos a promover uma festa de arromba com 7,7 bilhões de participantes. Faz lembrar o Baile da Ilha Fiscal, oferecido pela realeza brasileira para 5.000 convivas em 1889. Menos de uma semana depois, a monarquia era extinta e a família real deportada. Daquela feita se dançou ao som de valsas e polcas. Desta feita será punk e, a menos que você acredite em uma mudança para Marte, não teremos para onde fugir.

Como agravante, vivemos uma crise no sistema democrático, tomado pelas corporações (A história das coisas, YouTube). No Ocidente, a classe média sofreu perda de renda, decorrente da automatização de processos e da transferência dos meios de produção para o Oriente, resultando na concentração de renda e na corrupção planetária (What´s gone wrong with democracy, The Economist, 2014). Com desafios de sobrevivência e sem perspectivas de futuro, milhões foram tomados pelo desalento e pela raiva, levando-os a optar por líderes populistas cujas propostas não encontram amparo nos anais da História, da Ciência e da Civilização. Impressiona constatar o orgulho com o qual muitos deles exibem sua ignorância em público (O ataque à razão, 2008).

No outro extremo, há um grupo crescente de cientistas, organizações não governamentais, empresas e governos trabalhando na mitigação dos efeitos do aquecimento global. Mais recentemente, jovens, como a sueca de 16 anos Greta Thunberg, se incorporaram ao movimento e já organizam greves pelo clima. Afinal de contas, serão os jovens que pagarão a nossa conta! A substituição dos combustíveis fósseis por energia renovável (solar e eólica) se encontra em processo de expansão. (Abundância, 2014). A produção de alimentos com utilização racional de água e insumos, e próxima aos centros consumidores, é realidade (The Vertical Farming, 2011). Despertamos para a finitude da água e passamos a utilizar a água da chuva, tratar os esgotos e despoluir rios e mares. Assistimos à revolução das bicicletas e de automóveis compartilhados nas grandes cidades. Conhecido pela SpaceX, Elon Musk (2015) constitui exemplo do porvir. Em 2018 sua empresa Tesla produziu 200 mil carros elétricos de alto desempenho, atingindo valor de mercado de 40 U$ bilhões, próximo ao da GM (56 U$ bi) e Ford (41 U$ bi), com a diferença de que essas duas empresas produziram juntas 5,5 milhões de automóveis. Para alimentar as baterias de seus carros, Musk criou a Solar City que, como nos satélites, faz uso da mais abundante forma de energia na Terra: a solar. Em artigo intitulado Brasil Verde (Folha de S. Paulo, 28 de julho), Dr. Armínio Fraga defendeu a viabilidade econômica de o Brasil investir na preservação ambiental, incluindo o desmatamento negativo. Tais iniciativas corroboram ideias defendidas por Paul Gilding em A Grande Ruptura (2011). Segundo ele, parte dos empregos do futuro virá de atividades relativas à recuperação ambiental. Mas ele não vende ilusões. Pelo contrário, ele afirma que será uma guerra pela nossa sobrevivência. Eu prefiro pensar que será o Programa Apollo deste século.

Em 1633 Galileu Galilei foi condenado por suas observações relativas às manchas solares, crateras lunares e centralidade do Sol. As Verdades Inconvenientes de Galileu estão para a Idade Média, assim como as Mudanças Climáticas estão para os dias atuais (Uma verdade inconveniente, 2006; Uma verdade ainda mais inconveniente, 2017).

Em 1992 o papa João Paulo II reconheceu os erros contra Galileu. Em 2017 a Igreja adotou Biomas Brasileiros e Defesa da Vida como tema da Campanha da Fraternidade. O poder outrora exercido pela Igreja emana hoje dos conglomerados transnacionais, que se apossaram do sistema democrático e manipulam nossa boa fé. Negar as verdades científicas no século XVII atrasou a evolução da espécie humana, mas negá-las no século XXI representará o fim de nossa civilização. Ao contrário da Igreja, nós não teremos 359 anos para nos arrependermos. Já passou da hora de agirmos (A Terra inabitável, 2019).

 

José Bezerra Pessoa Filho é servidor de carreira de C&T, filiado ao SindCT

 

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