Edição Gênica – uma técnica que pode mudar quem somos?

O Melhoramento genético em humanos é uma promessa elusiva

Um dos motivos pelos quais a modificação de embriões humanos é controversa é por ser transmissível à gerações futuras

Por Ursula Matte

 

Uma nova técnica de manipulação de genes está revolucionando o campo da engenharia genética: a edição gênica mediada por CRISPR-Cas. O termo CRISPR significa Repetições Palindrômicas Curtas Agrupadas e Regularmente Interespaçadas (do inglês Clustered Regularly Interspaced Short Palindromic Repeats). Desenvolvida a partir de um sistema imune bacteriano, este método tem como principais vantagens sua versatilidade e facilidade de aplicação. De uma maneira bastante simplificada (se comparada aos métodos tradicionais de modificação genética) esta técnica permite alterar genes de forma pontual, interrompê-los ou ainda inserir sequências de interesse em regiões do genoma.

Do ponto de vista técnico, ainda há aspectos relacionados à sua especificidade que precisam ser mais bem estudados, mas isso não impede que seu uso esteja aumentando, como pode ser demonstrado pelo número de artigos indexados em bases de dados. Uma busca pelo termo “CRISPR” na base PubMed retornou 4.464 artigos publicados em 2018 e 3.305 até julho de 2019. Além disso, essa técnica possui uma ampla gama de aplicações que vão desde o uso em seres humanos até melhoramento vegetal, passando por controle de vetores.

Em relação à modificação de plantas de interesse comercial, a principal discussão é se as modificações realizadas por CRISPR devem ser submetidas ao mesmo tipo de regulamentação que à dos demais organismos geneticamente modificados (OGM). Os defensores de uma análise mais branda para esta técnica (em comparação aos OGM tradicionais) argumentam que ela é mais precisa que as demais técnicas de modificação genética e que a imposição de uma regulamentação rigorosa encarece o seu uso.

Estudos de percepção social desta tecnologia nos Estados Unidos, Canadá, França, Bélgica e Austrália mostram que a população tende a considerá-la equivalente aos OGM (Shew et al., 2018). Há outros aspectos importantes a serem considerados, além das questões regulatórias propriamente ditas. Em alguns casos, a edição gênica de fato pode ser considerada menos disruptiva do que técnicas tradicionais.

Por exemplo, para interromper a função de um gene por CRISPR não é necessária a sua interrupção por uma sequência exógena, como nas técnicas tradicionais. Além disso, nesse caso específico, e quando ocorrem substituições de base, a alteração pode ser produzida sem que fique uma “cicatriz” facilmente identificável no genoma, o que dificulta a detecção de indivíduos modificados. Mesmo assim, é preciso diferenciar qualitativamente essas alterações geradas pelo CRISPR daquelas mutações que surgem espontaneamente, ainda que sejam indistinguíveis tanto a olho nu, quanto por técnicas de biologia molecular. Isso porque há uma intencionalidade subjacente à criação dessas variantes, que não ocorriam na natureza.

 

Mas o ponto mais polêmico da utilização desta técnica é para a manipulação de genes humanos. Não quando se trata de uso terapêutico através da modificação de células somáticas de indivíduos doentes, com a finalidade de aliviar o sofrimento. Porém, quando essas alterações são realizadas em embriões humanos ou com fins não terapêuticos, há a necessidade de uma cuidadosa avaliação das consequências éticas e sociais. A divulgação em um evento científico de que um pesquisador chinês havia modificado dois embriões humanos com a técnica de CRISPR para torná-los imunes à infecção por HIV alertou a comunidade científica para a velocidade dos acontecimentos neste campo e para necessidade de uma regulamentação mais efetiva.

Um dos motivos pelos quais a modificação de embriões humanos é controversa é por ser transmissível às gerações futuras. Isso significa que qualquer alteração realizada, com objetivo terapêutico, ou não, passará a fazer parte do conjunto genético da espécie humana. Além disso, essas alterações permanentes são realizadas sem o conhecimento do indivíduo que será portador delas por toda a vida, independentemente da sua vontade. Finalmente, a realização deste experimento no estágio atual do conhecimento, especialmente sem que se saiba de possíveis eventos, é uma clara violação do princípio da precaução.

No entanto, alertou a comunidade científica não apenas de que essa possibilidade é factível, mas também de que há indivíduos interessados em realizá-la. A reação mais contundente veio na forma de um pedido de moratória a ser apresentado na Organização das Nações Unidas. Entre os argumentos levantados, está o de que os riscos não suplantam os benefícios. Mais importante, porém, há argumentos de que existem alternativas para casais em risco de terem filhos com doenças genéticas, reduzindo a justificativa para esse tipo de procedimento.

Talvez, esses argumentos de fato demonstrem que o interesse na aplicação desse tipo de tecnologia em embriões vai mais além dos objetivos terapêuticos e se mistura, perigosamente, com estratégias de melhoramento genético. Mas é preciso levar em conta que o melhoramento genético em humanos é uma promessa elusiva. No exemplo chinês, a mesma alteração que cria a resistência ao HIV aumenta a suscetibilidade à infecção por outros tipos de vírus. Além disso, as principais características de interesse para melhoramento são multifatoriais, isto é, não dependem exclusivamente dos genes.

Mas mesmo que se pudesse pensar em características com forte componente genético – seria correto usar uma técnica, que como mencionado anteriormente pode passar despercebida, para alterar a constituição genética de um indivíduo e seus descendentes? Estaríamos revivendo a distopia de Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, com a criação de castas geneticamente definidas? É importante pensar que o uso abusivo de novas tecnologias pode ocorrer por pressão governamental (em sociedades menos libertárias), mas é igualmente nocivo em sociedades livres, nas quais o poder aquisitivo determina quem tem, ou não, acesso às tecnologias. E nessas sociedades a pressão social também funciona como um poder coercitivo de adesão.

Portanto, é necessário um maior envolvimento da sociedade na discussão de quais são os limites do que é aceitável, tanto em termos de risco quanto de equidade. E novamente o papel da intencionalidade deve ser debatido – quais os objetivos declarados e subjacentes na adoção desta tecnologia.

 

Dra. Ursula Matte é Professora do Departamento de Genética, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Hospital de Clínicas de Porto Alegre

 

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