Abelhas, sapos, índios

CULTURA

Mato Grosso do Sul e o estado em que maior número de índios é assassinado anualmente

O Brasil possui mais de 600 variedades de sapos, muitas das quais sofrem risco de extinção

Por Regina Carvalho

 

Neste sábado, 10 de agosto, dia de sol, entra abelha em minha cozinha e fica zunindo por ali. Vem atraída pelo cheiro do café, mas antes eram dez ou doze de cada vez, a ponto de eu colocar telas nas janelas. Não queria matá-las, mas fui picada duas vezes, por acidente. As telas resolveram. O apartamento é outro, não há telas..., nem quase abelhas. Há três meses não vinha alguma, estava frio. Agora, uma, apenas uma de cada vez.

O desaparecimento das abelhas tem ocorrido no mundo todo, dizem que por conta dos agrotóxicos, e pesquisas sugerem que sua extinção significa também a do ser humano. Nesta mesma semana, recebi vídeo de apicultor mostrando suas caixas, abelhas mortas pelo chão, em meio a laranjal, por causa do profenide. E alerta ele: “Você vai chupar as laranjas saídas daqui. Prepare-se para o câncer!”

A imprensa divulga que estão inventando abelha-robô para polinização. Árvores levam anos para se desenvolver. O desmatamento acelerado permitirá isso? Nem vou tocar na questão do mel.

Sou apaixonada por sapos e nos livros infantis que escrevo, eu os humanizo – publiquei dez livros, tenho outros escritos. Não viram príncipes, só no primeiro, por razão que se chama “verossimilhança”, em literatura. Príncipes são parasitas sociais, em sua maioria, geneticamente deficientes por gerações de endogamia. Na sua biotrajetória, os anuros (sapos, rãs, pererecas) sofrem metamorfose, e por isso são tão adequados à ficção. Mas crio sapos que são sapos, embora personalizados, e gosto deles assim, sendo sapos, mesmo que com trabalhos e atitudes humanos.

 

O Brasil é país com mais de 600 variedades, e também sofrem desaparição acelerada: 30 espécies já extintas, 35 em vias de extinção. São muitas as causas, nenhuma digna de perdão – anuros são benfazejos, protegem lavouras, causa do amor dos japoneses por eles. Nós, porém, os achamos feios, sentimos nojo deles, lhes fazemos maldades e lhes atribuímos intenção do mal. A pior maldade está sendo acabar com eles, o que é prejuízo para nós mesmos. Ser feio é crime? Pois há sapos lindos, de todas as cores, dourados, azuis, pintalgados... Como dizia aquele personagem de Chico Anísio: “a inguinorância é que astravanca o progréssio.” E nunca foi tão atual esse bordão.

Mas nesse pequeno rol de destruição, nenhuma tão terrível e triste como a de nossos índios. Gentis e disponíveis em sua maioria, começaram a ser dizimados já no Descobrimento. Caminha diz, sobre as mulheres, que eram “saradas”. Saradas em todos os sentidos: limpas, bonitas, saudáveis. E os nada limpos portugueses devem ter lhes passado todo tipo de DST, além de piolhos e percevejos. Mas elas andavam nuas, e não tinham o puritanismo cristão... Não mereciam respeito, pois. (Quase 520 anos depois, a mentalidade ainda perdura).

Eram mais de 4 milhões de índios, distribuídos por todo o território nacional. Hoje, quantos serão? Avalia-se em cerca de 800 mil, ocupando áreas cada vez menores. As estatísticas são incertas, pois há um grande número de pessoas que se autodesignam indígenas. O histórico dessa diminuição é de nos matar de vergonha. Felizmente, a Nova História tem alterado o róseo de antes. Os bandeirantes já estão caracterizados como genocidas e escravistas, os jesuítas queriam carne (?) moldável para seu moedor de almas cristianizante, colonos alemães no sul do Brasil não sentiam nenhum escrúpulo em pagar bugreiros para que caçassem índios como se animais fossem (Prof. Sílvio Coelho dos Santos, Índios e Brancos no sul do Brasil, Ed. Movimento, mais seus livros sobre os Xokleng). A terra precisava ser liberada para exploração rentável. Os guarani da reserva de Morro dos Cavalos, em SC, têm sofrido constantes violências e incêndios na mata que rodeia suas terras. Mato Grosso do Sul é o estado em que maior número de índios é assassinado anualmente. Casos computados, porque não dá pra saber os que não chegam ao conhecimento de imprensa ou das autoridades.

Sertanista que li na adolescência conta de avião que sobrevoou aldeia no Xingu, bondosamente jogando roupas, cobertas, comida... contaminadas com vírus de sarampo. Era um avião do Correio Aéreo Nacional. A conivência e colaboração do mundo oficial com tais ações ficam expostas em relatório do Ministério do Interior de 1968 – em que o General Ministro não isenta de culpa os mais de mil funcionários do Serviço de Proteção ao Índio, embora 134 sejam os comprovadamente culpados.

Há muito material na internet, mas deve-se ler Frei Bartolomeu de las Casas (O Paraíso Destruído, Ed. L&PM), que conta do genocídio ocorrido no mundo hispânico, em seus livros, que permanecem atuais. E a revista Piauí traduziu e publicou este ano artigo de repórter americano, Norman Lewis, que fez estudo exaustivo, do Descobrimento até 1969, data da publicação original. “Genocídio” é seu título, e trata também de outros – o mundo hispânico e luso foi bem pródigo nisso. A história que mais me chocou é a de um médico que foi à aldeia indígena aplicar vacina contra sarampo... e inoculou vírus da varíola, extinguindo completamente a aldeia. Sabemos de médicos do Mal, também, ao longo da história, mas sua existência nos choca. Psiquiatras que supervisionam torturas, e vai por aí afora. Mas sempre incomoda saber disso.

Aquele indigenismo de José de Alencar, que lemos nas aulas de Português, ou estudamos depois, são romantização que só mal faz, pois ao se defrontar índios de carne e osso vemos que nada têm de românticos. Tive amiga que se gabava de ter “avó índia”, mas suas lembranças mostravam mulher submissa, vestida com roupas “civilizadas”, mal falando o português, e vivendo ao pé do fogão de lenha. Me faziam pensar num cachorrinho...

A convenção da ONU de 1948, logo após o Holocausto, caracteriza como genocídio, a “transferência forçada de menores de um grupo para outro grupo”. A Ministra Damares, que retirou índia de sua aldeia, agora quer que os índios sejam poupados, para entrarem no moedor evangélico de almas...

 

Regina Carvalho é escritora e professora aposentada de Letras e de Jornalismo na UFSC

 

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