Ricardo Salles, o ímprobo

Ricardo Salles é o adversário a ser combatido e desmascarado

Não se buscava contrapor aos resultados apresentados pelo INPE uma crítica metodológica, mas sim identificar o INPE e seus dirigentes e cientistas como inimigos
 

Da Redação

 

Ricardo Salles tem uma antiga fixação pelo INPE. No mesmo dia em que foi anunciado pelo então presidente eleito como Ministro do Meio Ambiente, em 07/12/2018, ele disparou sua metralhadora verbal contra o INPE, duvidando dos resultados apontados pelo DETER e PRODES. O que espantava naquela fala era o fato dele nunca ter visitado o INPE, nem tampouco ter algum diálogo com os cientistas responsáveis pelo sistema. E foi além. Pela primeira vez acenava com uma ameaça, anunciando que contrataria um sistema privado para substituir aquele desenvolvido pelo INPE.

Talvez a euforia do momento o tenha levado a cometer um ato falho, já que omitiu uma palavra mágica no serviço público: realizar a licitação. E ele não disse o que vai fazer para conter a explosão da devastação, que é sua responsabilidade, pois o que falta na Amazônia neste momento, são fiscalização e investimento em atividades sustentáveis. Já passou pelo PFL e PP, mas como membro do partido NOVO talvez já estivesse antecipando a nova forma de fazer política que viria a ser a tônica do governo vindouro.

Ricardo Salles presidiu o movimento Endireita Brasil e defendeu "bala" como resposta ao MST, quando candidato a deputado federal nas eleições de 2018. O eleitor de direita, pasmem, assustou-se com a mensagem “pacífica” de seus santinhos e não deu a ele os votos necessários para se sentar numa cadeira na Câmara dos Deputados. Mas o presidente eleito encantou-se com a “capivara”, com o discurso novo e com as propostas, digamos, rudes, de Salles para “endireitar” o meio ambiente.

Ricardo Salles posa de paladino, mas seu passado o condena. Em 2017, o Ministério Público denunciou Ricardo Salles por fraude ambiental e improbidade administrativa. Segundo o MP, Salles favoreceu empresas de mineração e filiadas à FIESP ao alterar mapas de zoneamento do plano de manejo da Área de Proteção Ambiental (APA) do Rio Tietê (APAVRT) quando era secretário de Meio Ambiente de São Paulo. O juiz condenou Ricardo Salles à suspensão dos direitos políticos por três anos e ao pagamento de multa no valor de 200 mil reais. Além disso, Ricardo Salles está proibido de ser contratado pelo Poder Público. Não sei se Salles já pediu perdão, mas não vem ao caso, o presidente não se importou com este “pequeno delito”.

Ricardo Salles deveria, segundo a Folha de São Paulo, ser nomeado titular do Ministério da Riqueza. O colunista Reinaldo Azevedo publicou a seguinte nota: “O Brasil está diante de um milagre da multiplicação do patrimônio: Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente. Seus bens crescem a uma velocidade só compatível com o desmatamento da Amazônia. Estamos diante de um prodígio. Oficialmente um liberal mais ortodoxo do que caixinha de Maizena (pego a imagem emprestada de crônica de Luis Fernando Verissimo), Salles conseguiu fazer com que seu patrimônio crescesse 528%, em termos nominais, em seis anos. Saltou de já apreciável R$ 1,4 milhão em 2012 para R$ 8,8 milhões em 2018. Fabuloso!”. O Ministério Público de São Paulo abriu um inquérito para apurar desempenho tão notável. Dois pedidos de quebra de sigilo já foram recusados pela Justiça.

Ricardo Salles não tem propostas novas: afrouxar a fiscalização ambiental, espoliar os recursos minerais de maneira predatória, desqualificar pesquisa científica usando um PowerPoint®, acusar o opositor de manipulação ideológica, perseguir subordinados que não rezam por sua cartilha e desperdiçar recursos públicos para atender a interesses escusos são práticas antigas, algumas delas remontam ao descobrimento do Brasil.

Ricardo Salles não é um lunático, como alguns sugerem. Mas se fosse, sua loucura tem método, não age por impulso, nem é lobo solitário. Quando o diretor legítimo do INPE, Ricardo Galvão, reagiu aos ataques desferidos pelo presidente da República contra a sua honra e ao INPE, o ímprobo fez parte de uma mesa para uma live presidencial para novos ataques, na qual também estavam presentes Ernesto Araújo, Ministro das Relações Exteriores e General Heleno do GSI.

A tônica da narrativa lá encetada foi no sentido de identificar Ricardo Galvão e os responsáveis pelo sistema de monitoramento da Amazônia como “maus brasileiros” e “traidores da pátria”. Ou seja, não se buscava contrapor aos resultados apresentados pelo INPE uma crítica metodológica, mas sim identificar o INPE e seus dirigentes e cientistas como inimigos. E inimigos, como preconiza qualquer ideologia militar, devem ser eliminados.

O apóstolo João, em sua terceira visão profética, relata no livro Revelações a presença de quatro cavaleiros simbólicos, que preconizariam o fim de todas as coisas. O primeiro inimigo já foi abatido. O honrado, reconhecido internacionalmente e premiado Ricardo Galvão foi apeado de seu mandato legítimo, faltando ainda 13 meses. Quanto tempo levará para outros serem eliminados? E qual a sobrevida do INPE? Como fica a independência para produzir dados sobre desmatamento? Naquela mesa faltou alguém?

Ricardo Salles não é o titular do MCTIC, do qual o INPE é um instituto vinculado. O maior deles, frise-se. No entanto, o ímprobo age como se o MCTIC fosse acéfalo, pois ao longo destes oito meses de governo, só quem fala do INPE, age contra o INPE, acusa sem provas o INPE é Ricardo Salles.

Se um marciano pousasse na Terra em meados de julho passado, poderia perguntar a seu interlocutor terráqueo, afinal, quem é o Ministro da Ciência e Tecnologia, que não defende seu maior instituto de pesquisas? Ao bem da verdade, o titular do MCTIC se manifestou sobre o tema. Foi no dia 22/8, em sua rede social, quando afirmou: “que compartilha da estranheza expressa pelo presidente Jair Bolsonaro quanto aos dados do desmatamento que o Inpe produz”. Com relação aos dados de desmatamento produzidos pelo Inpe, Pontes disse que “o INPE é uma organização pelo qual tenho grande apreço, entendo e compartilho a estranheza expressa pelo nosso presidente Bolsonaro”. Pontes disse discordar da maneira como agiu Ricardo Galvão, ao dar entrevistas para a imprensa criticando os questionamentos do presidente. Como bom militar, não discordou da maneira como Bolsonaro tratou Galvão, pelo qual, disse ter grande apreço e enviou abraços espaciais. E o apreço logo em seguida foi reforçado, com a exoneração de Ricardo Galvão e a nomeação de um interventor militar.

Ricardo Salles deve ter se empolgado quando Ricardo Galvão explicou “Imagina que tenho uma câmera para ver o campus da USP e quero detectar pessoas com blusa vermelha. O campo de imagem é muito amplo...”. O ímprobo se coçou e refletiu: Por que não pensei nisso antes, usar satélite para caçar os vermelhos? Galvão foi além: “Eu preciso de uma resolução de 2m (Planet) se eu quiser pagar muito mais para um sistema com maior resolução. Não se mede a distância Rio-São Paulo com régua de 10 cm.”

Não será utilizando imagens de satélites com maior resolução que melhorará a imagem do Brasil, mas com políticas públicas de combate ao desmatamento ilegal e respeito às instituições públicas que fazem ciência. Quanto à imagem do ministro do Meio Ambiente, por certo ele deve se identificar com aquela em que se apresenta publicamente com ternos bem cortados e discurso raso, quando deveria é se preocupar com a imagem que deveria passar aos seus próprios subordinados, como os do IBAMA e do ICMBIO.

Falar em imagem, também o cosmonauta poderia deixar de lado o narcisismo e a imagem que vende em sua repetitiva palestra de coach e auto-ajuda e começar a se preocupar com o futuro dos institutos de pesquisas sob a sua guarda, atingidos por cortes orçamentários, falta de concursos públicos e submetidos aos grilhões da Emenda Constitucional 95.

Ricardo Salles é o adversário a ser combatido e desmascarado em suas reais intenções, pois tanto o ausente cosmonauta quanto o interventor empossado recentemente são apenas peões no xadrez em que o INPE está sendo disputado.

 

O BOM COMBATE


 

Caríssimos Amigos,

Estes últimos meses têm sido de muita tribulação para todos nós, “os mentirosos”. Em resposta ao ataque que o INPE sofreu, repetindo um cenário que já vimos no passado, mas que agora veio renovado com muito maior intensidade e num contexto preocupante de uma visão obscurantista e autoritária de alguns setores do Governo, não havia alternativa a fincar posição e responder com contundência!

A única via para nossa nação alcançar o desenvolvimento sustentável, com soberania e bem-estar de toda a sociedade, é através da ciência e da tecnologia avançada, apoiadas em uma educação eficaz e sólida. Mas isto não se alcança com as palavras vazias da maioria de nossos políticos. É necessário fazermos nossa parte, sem esmorecer frente às dificuldades, restituindo à sociedade o produto de nosso trabalho feito com dedicação, dignidade, alta qualidade profissional e transparência.

Não podemos deixar, de forma alguma, que prevaleçam interesses políticos ou de setores que procuram explorar de forma utilitarista nossas instituições científicas. Em especial, no caso do INPE, temos que sempre honrar o legado de colegas que nos precederam na construção desta instituição que é um dos maiores orgulhos da ciência brasileira, a começar pelo Dr. Fernando de Mendonça. Somos altivos servidores do Estado Brasileiro e não apenas simples ordenanças do Governo de ocasião.

Agradeço a toda comunidade inpeana pela forma cordial e colaborativa com que me recebeu e peço perdão pelos erros que possa ter cometido. Em especial, agradeço ao SindCT pela maneira respeitosa com que sempre me tratou. Durante o processo do comitê de busca, que resultou em minha indicação para dirigir o INPE, foram levantadas algumas suspeitas sobre as razões para minha indicação. Mas, logo após eu assumir, a Diretoria do SindCT discutiu comigo as perspectivas para minha gestão com muito profissionalismo e respeito, de maneira altiva, não submissa. Ao longo destes quase três anos tivemos algumas discordâncias, mas sempre trabalhando para o progresso e defesa do instituto.

A meus irmãos de fé, à Comunidade Shalom, peço que continuemos orando e pedindo ao Senhor que fortaleça cada vez mais a irmandade, compreensão, respeito às divergências e dedicação entre os servidores do INPE.

Encerro estas poucas palavras com uma mensagem de esperança. Creio que a ciência brasileira e o INPE, em particular, saíram bastante fortalecidos desta provação. Peço que recebam o Diretor Interino, Dr. Darcton Damião, com o mesmo espírito colaborativo com que me receberam. Ele conhece o instituto e tenho certeza de que, respeitando sua tradição, atuará contra interferências externas indevidas em suas atividades.

 

Ricardo Galvão

 

 

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