A Ciência Brasileira precisa de ministro com coragem de astronauta

A popularidade de Marcos Pontes poderia ser útil na cruzada pela recomposição do orçamento do MCTIC (o menor em 15 anos!) e na constituição de políticas públicas que socorram os institutos de pesquisas, que sofrem esvaziamento de recursos humanos e materiais. Ele não contava com as gafes do governo contra ações da sua pasta e nem com os diuturnos ridículos das polêmicas posturas do governo que compõe, que vão do negacionismo do aquecimento global ao terraplanismo. Para piorar, há nele um deslumbramento, uma adesão ao título de astronauta. Seus discursos, grandemente consumidos pela promoção de si mesmo, contam uma história de superações, fórmula excelente de incentivo à perseverança e superação, mas já gasta e inconveniente às plateias menos juvenis.

Ao alinhar-se com a postura de Bolsonaro na demissão do diretor do INPE, o ministro prestigiou a verve militar, engoliu a dignidade e obedeceu ao superior; designou um interventor no instituto, traiu a ciência, cedeu ao obscurantismo e à truculência. A coletiva de imprensa sobre o assunto ocorreu sem a sua presença, demonstrando omissão ou desprestígio, não sei o que é pior. Nela, Ricardo Salles, em companhia do presidente e dos ministros das Relações Exteriores e do GSI, anunciou a contratação de empresa privada para monitorar a Amazônia, invadindo atribuição e competência de sua pasta e expondo uma desconcertante falta de protagonismo ou prestígio no governo.

Violentado às vésperas de seu 58º aniversário, o INPE conta com a solidariedade de toda a comunidade científica nacional e internacional. O mesmo apoio socorre o ex-diretor, Ricardo Galvão, que não transigiu, perdeu o cargo defendendo a instituição, sua reputação resta intacta, fortalecida. Bolsonaro não tem o que perder, todos os dias entrega ações das tresloucadas promessas de campanha eleitoral. O ministro astronauta é quem acumula maior prejuízo: a subserviência de caserna lhe proporciona compaixão, mas não reconhecimento de valor, o que viria da imposição de sua reputação na defesa, não só de um cientista ou de uma instituição, mas da pasta que titula.

As unidades de pesquisa seguem perdendo entre 10 e 15% dos quadros de pessoal a cada ano. Não há previsão orçamentária para contratações em 2020. Ao contrário, há indícios de que uma grande reforma administrativa está convergindo para a composição do Estado Mínimo. Nessa desconstrução, nem o MCTIC nem as Carreiras de C&T sobrevivem. A demora do ME em liberar a dotação orçamentária suplementar já aprovada para o CNPq (300milhões) causa especulação de que haveria fusão com a CAPES e transferência para o MEC. A FINEP iria para o BNDES; a CNEN para o MD, assim como a AEB. Algumas UP seriam fundidas e transformadas em OS e muitas seriam simplesmente extintas. O INPE, ironia das ironias, iria para o MMA!

Quanto à extinção das carreiras, a reforma evitaria nomenclaturas que dificultem a movimentação de servidores, que poderia ser de forma compulsória, com justificativas tão vazias quanto a simples alegação da “necessidade do serviço”. Os aposentados das carreiras extintas ficariam sem qualquer referência de paridade e integralidade dos salários, direito dos servidores ingressados até 2013, portanto, sem a mínima expectativa de recomposição de perdas do poder de compra dos proventos.

Questionado pelo Fórum de C&T, em 19 de agosto, o ministro Marcos Pontes afirmou desconhecer estes movimentos.

Charge do Mês


 

 

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