C&T

QUALQUER UM COM UM POUCO DE BOM SENSO HOJE EM DIA É ECOLOGICAMENTE CORRETO

 

Brasil: 50 anos depois do homem na Lua

 

 

Enquanto a
humanidade celebra
um dos maiores feitos
da ciência e da
tecnologia de todos
os tempos, Bolsonaro
e seus ministros
refutam
sistematicamente as
verdades científicas.

 

Por José Bezerra Pessoa Filho

 

Em crônica publicada em janeiro deste ano, fiz uso da edição do jornal Folha de S. Paulo de 20 de julho de 1969 para escrever artigo no qual ofereci minha visão de nossa épica viagem à Lua. Este mês eu deveria usar este espaço para publicar o último e sexto artigo da série, intitulado A Maior Descoberta da Era Espacial, mas como profissional que dedicou algumas décadas de sua vida à ciência, à tecnologia, à educação e à cidadania, tive que alterar meus planos. Na manhã de sábado, 20 de julho, comprei a Folha de S. Paulo, na expectativa de verificar como aquele jornal trataria os 50 anos de um dos maiores feitos da história de nossa civilização. Ainda que eu tenha conseguido identificar em uma foto de capa a marca de um dos pés de Buzz Aldrin na superfície lunar, não pude deixar de direcionar meus olhos para a manchete do jornal: “Bolsonaro nega fome no país e depois ameniza afirmação.” Tal afirmação ocorreu enquanto o presidente oferecia café da manhã a jornalistas estrangeiros.

No mesmo encontro nosso presidente questionou os dados do INPE que mostram aumento do desmatamento na Amazônia. Segundo o presidente: “Com toda a devastação de que vocês nos acusam de estar fazendo e ter feito no passado, a Amazônia já teria se extinguido, disse.” Outro especialista no assunto, o general Augusto Heleno, arrematou: “Se você somar os percentuais já anunciados até hoje de desmatamento da Amazônia, a Amazônia já seria um deserto. No entanto, nós temos muito mais da metade da Amazônia intocada.” Que alívio general! Quer dizer que ainda temos metade da Amazônia para destruir? Sugiro a V. Exa. a leitura de Não Verás País Nenhum (1981), obra-prima de Ignácio de Loyola Brandão. Àquelas alturas os jornalistas estrangeiros já tinham perdido a fome e se perguntavam que líquido mágico era aquele que o ministro da Casa Civil sorvia de uma cuia de madeira.

Sorte teve o ministro Ricardo Salles, que na ocasião se encontrava em Fernando de Noronha. Ele também não acredita no desmatamento da Amazônia, mas como o presidente ficou indignado com os R$ 106,00 que as classes mais favorecidas pagam para visitar aquela ilha, ele foi lá conferir. Não se tem notícia de que tenha reduzido a taxa, mas, para não perder a viagem, ele anunciou, sob protestos dos especialistas naquele ecossistema, que, em breve, haverá voos noturnos para Fernando de Noronha.

Ricardo Salles é aquele que, ao comparecer ao Programa Roda Vida da TV Cultura em fevereiro, afirmou que nunca tinha visitado a Amazônia e que também não conhecia a história de Chico Mendes, assassinado em dezembro de 1988. Se tivesse o hábito da leitura ele poderia ter lido Chico Mendes – Crime e Castigo (2003), do escritor Zuenir Ventura, ou, caso goste de música, poderia ter escutado a canção How many people (1989), composta por um tal de Paul McCartney, em homenagem a Chico Mendes. Ao contrário de Sua Excelência Ricardo Salles, Sir Paul McCartney afirmou: “Ele foi assassinado pela máfia local... Essa coisa não pode continuar. Se ao menos fossem muitos... Mas só alguns poucos estão dispostos a salvar o planeta. Qualquer um com um pouco de bom senso hoje em dia é ecologicamente correto. As pessoas não querem tocar no assunto. Acham chato e tal. Mas você tem que ser. Como não lamentar a perda de alguém como ele? Trabalhava sozinho, era casado. Era tão mais fácil para ele tocar a vida e dizer: Ah, vendam isso, vendam a floresta, e voltar para casa e ficar bêbado, não sei. Mas em vez disso, ele ficou e lutou.”

Ainda que não seja o meu intento estragar o passeio do ministro do Meio Ambiente a Fernando de Noronha, o impertinente jornal Folha de S. Paulo, publicou, no mesmo sábado, matéria informando que a reciclagem do lixo no Brasil é diminuta. Dentre as capitais, Florianópolis e Palmas dividem a primeira colocação com meros 6% de lixo reciclável. São Paulo ocupa a vexatória décima posição com apenas 3%. Em São José dos Campos, os números são igualmente vexatórios: 6%. Enquanto na Suécia apenas 7% do lixo vai para aterros sanitários, no Brasil esse percentual é de 97%. Fiquei curioso em saber o que o ministro Ricardo Salles teria a dizer sobre esse tema. Há ainda a questão da água, que ainda que não esteja sob a jurisdição daquele que diz ter estudado na Universidade Yale, tem relação direta com a temática ambiental. Ocorre que, no Brasil, apenas 53% do esgoto são recolhidos, dos quais somente 45% são tratados. Para completar, 38% da água tratada é perdida na distribuição.

De Cabo Canaveral, EUA, onde celebrava os 50 anos da Apollo 11, Marcos Pontes enviou artigo à Folha de S. Paulo, registrando que o seu sonho de ser astronauta foi despertado quando viu Armstrong e Aldrin na Lua. Ao final arremata: “Que nós, brasileiros, tenhamos atitude de vencedores para usar conhecimento, ciência e tecnologia como ferramentas para juntos construirmos um Brasil melhor para as futuras gerações.” Que futuro, ministro? Enquanto a humanidade celebra um dos maiores feitos da ciência e da tecnologia de todos os tempos, seu chefe e colegas de ministério refutam sistematicamente as verdades científicas. Fazem crer ao mundo que ainda estamos na Idade Média, quando Galileu, há mais de 4 séculos, arriscava a vida para estabelecer a ciência moderna baseada na observação. Se isso não fosse bastante, no mesmo caderno no qual V. Exa. expôs sua retórica, há uma matéria com o seguinte título: “MEC prevê alívio financeiro em 10 anos nas universidades, mas cala sobre 2019.” A matéria que segue apresenta um plano do ministro Abraham Weintraub que incluem organizações sociais, fundo imobiliário, Lei Rouanet, Naming Rights etc. Parece mais fácil chegarmos a Marte! Não custa lembrar que a média de idade dos operadores de vôo que colocaram Armstrong e Aldrin na Lua era de 26 anos. Ou seja, foram os adolescentes do Sputnik que, 12 anos depois, colocaram o homem na Lua. As futuras gerações aludidas em seu artigo, ministro Pontes, não podem esperar 10 anos. Para eles, o Futuro é agora!

A única luz daquele sábado, 20 de julho de 2019, foi a entrevista do diretor do INPE, Dr. Ricardo Galvão, que alheio aos riscos de perder seu cargo, teve a dignidade de defender sua organização e o trabalho de seus subordinados, que há décadas revela a destruição dos biomas brasileiros. Eles servem de exemplo para aqueles, que como eu, não aderiram à insanidade reinante.

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