Meio Ambiente

Bolsonaro acusa INPE de mentir sobre dados do desmatamento

 

Eu tenho a convicção que os dados são mentirosos” - um governo que despreza dados científicos e se baseia em convicções

 

 

Por Fernanda Soares

 

O INPE voltou a ser alvo de acusações por parte do governo federal. Desta vez, o presidente da República acusou diretamente a instituição de divulgar dados mentirosos sobre o desmatamento na Amazônia. Sem apresentar qualquer comprovação científica que corrobore suas declarações, Jair Bolsonaro disse: “não acredito que os dados que saíram no INPE sejam verdadeiros. Eu tenho a convicção que os dados são mentirosos, e nós vamos chamar aqui o presidente do INPE para conversar sobre isso, e ponto final nessa questão.”

A declaração foi mal vista em toda a comunidade científica. Em pouco tempo, o conselho da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência - SBPC, que estava reunido para a 71ª Reunião Anual da SBPC, se pronunciou em defesa do INPE e do diretor, Ricardo Galvão, através de uma carta ao Ministro da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicação, Marcos Pontes.

Além de endossar a idoneidade do INPE, a carta, assinada por 21 dirigentes de entidades científicas, demonstra a preocupação com as sanções que os institutos de C&T veem sofrendo desde o início do ano.

“Não bastasse os mecanismos públicos de aferição da respeitabilidade científica do INPE, como de resto de todas Unidades de Pesquisas deste Ministério, sofremos todos intensos escrutínios dos órgãos de controle da República.”

Em resposta, o Ministro da C&T divulgou uma nota em apoio ao presidente e cobrando esclarecimentos do diretor do INPE: "embora entenda o contexto do fator emocional, discordo do meio e da forma utilizada pelo diretor, visto que não corresponderam ao tratamento esperado na relação profissional, especialmente com o Chefe do Executivo".

Apesar de parecer ter colocado um ponto final no assunto, Bolsonaro voltou a comentar sobre o tema e ainda acrescentou que as informações do INPE sobre o desmatamento devem, antes de ser divulgados para a população, ser passadas a ele.

“O INPE não merece isso. A comunidade científica não merece isso. O país não merece isso. Galvão, vítima do franco atirador, não merece tamanho desrespeito. O homem da “arminha” inaugura, com este despropósito, uma inusitada postura, indigna de qualquer mandatário do país: lançar levianas e irresponsáveis suspeitas sobre a reputação da instituição e sobre a reputação de um cientista, seu diretor. Ao próprio ministro Marcos César Pontes, Ministro de Estado da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, cabe, utilizando-se de sua prerrogativa e prestígio, expressar-se em defesa do absurdo da situação”, divulgou o presidente do SindCT, através de nota oficial.

 

Substituição do INPE por empresa privada

 

Além da declaração contra o INPE, Bolsonaro ainda insinuou que seu diretor possa estar ligado a alguma ONG: “Mandei ver quem está à frente do INPE. Até parece que está a serviço de alguma ONG, o que é muito comum”, disse.

A declaração não causa estranheza, pois desde antes de assumir o governo há uma clara intenção de substituir o trabalho de monitoramento da Amazônia realizado pelo INPE por uma empresa privada. De acordo com uma reportagem da Folha de SP no início do ano, “Salles critica Inpe e quer empresa privada para monitorar Amazônia”, o governo quer contratar a "empresa paulista de geoprocessamento Santiago & Cintra" para a realização deste serviço.

Desqualificar o trabalho do INPE, mesmo sem comprovação científica e com calúnias, ajuda o governo a ganhar simpatia da população para apoiá-lo nessa substituição.

 

Manifestação servidores

No dia 22 de julho, cerca de 200 servidores se reuniram na portaria do INPE, num ato de desagravo ao INPE, seus servidores e seu diretor, Ricardo Galvão.

Alguns servidores do INPE fizeram declarações de apoio ao INPE, ao diretor e aos servidores que atuam nos projetos de monitoramento do desmatamento da Amazônia.

A nota oficial do Ministro Marcos Pontes foi lida na manifestação e amplamente vaiada pelos presentes.

O pesquisador do INPE, Dr. Antônio Miguel Vieira Monteiro, recebeu aplausos ao afirmar: “o ministro da Ciência e Tecnologia, ao responder, está questionando um homem ao qual ele não chega aos pés, que é o diretor do INPE hoje, nem na capacidade técnica, nem na capacidade como gestor”.

 

A posição do diretor do INPE

 

Ficou muito evidente, nas diversas entrevistas concedidas, que diretor do INPE, assim como toda a comunidade científica, ficou fortemente perplexo diante das declarações caluniosas do presidente da República.

Ao Jornal do SindCT, Ricardo Galvão explicou que, desde o início do ano, o INPE tem notificado o governo federal sobre as taxas de desmatamento, através de inúmeros ofícios. Além das notificações, o INPE também se colocou à disposição para abrir um canal direto de comunicação com o governo e ajudar a desenvolver ferramentas de combate e de fiscalização do desmatamento. Durante esses sete meses do mandato de Jair Bolsonaro, o INPE não recebeu nenhuma resposta do governo federal.

Sobre a declaração do presidente, Galvão afirmou: “dizer que os dados do INPE são mentirosos é uma ofensa, ele está desprezando o trabalho de pesquisadores de altíssimo nível”.

Cabe lembrar que o INPE não é o órgão responsável pelo combate ao desmatamento, isso é função do IBAMA (também atacado pelo governo e impedido de realizar fiscalização) e da polícia.

 

 

Como é medido o desmatamento

 

O INPE destaca sua política de transparência dos dados que permite o acesso completo a todas as informações geradas pelos seus sistemas de monitoramento. Este acesso possibilita avaliações independentes pela comunidade usuária, incluindo o governo em suas várias instâncias. A transparência e a consistência da metodologia do INPE para monitorar o desmatamento na Amazônia são reconhecidas internacionalmente.

Sobre o recente aumento do desmatamento, especificamente em junho e julho, o SindCT apurou que as informações que estão sendo exploradas pela imprensa utilizando dados do Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real - Deter, o INPE sempre salientou que este sistema foi concebido para fornecimento de alertas de desmatamento, tendo sido desenvolvido metodologicamente para dar suporte aos órgãos de fiscalização.

A informação sobre áreas é para priorização por parte das entidades responsáveis pelo combate e não deve ser entendida como taxa mensal de desmatamento. O número oficial do INPE, que mede a taxa anual de desmatamento por corte raso na Amazônia Legal brasileira, é fornecido, desde 1988, pelo projeto PRODES, que para o ano de 2019 será divulgado até o início de dezembro próximo.

 

Compartilhe
Share this