Amazônia em Foco

in Notícias SindCT

As emissões de CO2 devem ser reduzidas. Floresta em pé é mais rentável que derrubar árvores para plantar soja ou criar gado. A Ciência não é inimiga do Brasil e do planeta. O INPE é uma instituição respeitada no mundo inteiro pela qualidade de suas pesquisas. Os ataques dos agentes do atual governo ao INPE, e aos seus servidores, fazem parte de uma escalada obscurantista que tem como alvo instituições de Estado, como IBGE, FIOCRUZ, FINEP, CNEN, INCA, IPEA e tantas outras comprometidas com a perenidade e qualidade do serviço público. O terraplanismo parece uma piada anacrônica, mas é uma das faces perversas da ignorância e do movimento anti-ciência que hoje influencia uma parcela significativa da sociedade brasileira. Mudanças nos hábitos de consumo e ativismo ambiental são fundamentais para entregarmos um planeta habitável às futuras gerações.

Estas foram as principais conclusões a que chegaram os palestrantes que participaram, no último dia 19 de setembro, do debate AMAZÔNIA EM FOCO, promovido pelo SindCT, como parte das comemorações dos 30 anos de sua existência. O debate reuniu três especialistas sendo um em Amazônia, outro em mudanças climáticas e o terceiro nos impactos que estes dois temas podem ter sobre o clima no planeta.

Carlos Nobre, Lúbia Vinhas e Jose Marengo, mediados pelo jornalista Claudio Angelo, fizeram breves apresentações e, em seguida, responderam as perguntas do público. A Amazônia está em foco, principiou Carlos Angelo, pelos piores motivos possíveis: a explosão das taxas de desmatamento, o número excessivo de focos de queimadas e as manifestações infelizes dos agentes do Governo atual, questionando a credibilidade dos números apontados pelo INPE, duvidando da honestidade do diretor exonerado, Ricardo Galvão, acusado pelo próprio presidente de estar a serviço de ONGs. O mediador, experiente jornalista ambiental e diretor de comunicação do coletivo Observatório do Clima, chegou a dizer que também está na mira de Ricardo Salles, e, como blague, pontuou que poderá dividir a mesma cela com os participantes da mesa, caso seja editado um AI-5 ambiental.

Os sistemas de monitoramento dos biomas, realizados pelo INPE, têm sido questionados pelo ministro Ricardo Salles, especialmente o PRODES e o DETER; Lúbia e Nobre relataram as origens de ambos os sistemas de monitoramento da Amazônia e mostraram que, ao longo de suas trajetórias, eles têm sido ferramentas eficientes em apontar as taxas de desmatamento e ao mesmo tempo, fornecer subsídios para a fiscalização do IBAMA, bem como auxiliar em outras políticas públicas na região amazônica, como por exemplo, os termos de ajuste de conduta na comercialização de carne e a moratória da soja. O PRODES também se reveste de grande importância como gerador do conhecimento científico, haja vista que só no último mês de agosto foi citado 1144 vezes em 390 periódicos científicos. Lúbia afirmou categoricamente que a informação não é inimiga de ninguém e os dados produzidos pelo INPE são confiáveis, isentos de manipulação e contribuem para aumentar o capital ambiental.

Seguindo na mesma linha de raciocínio, Carlos Nobre garantiu que o Brasil, nos últimos 20 anos, tornou-se líder em pesquisas sobre a Amazônia, tendo o INPE e o INPA à frente; e que é infundado levantar suspeitas a respeito da qualidade e ética destas pesquisas. O problema da devastação da Amazônia, lembrou o climatologista, remonta ao descobrimento; as taxas aumentaram com a política de ocupação da Amazônia na época da ditadura, quando o governo militar incentivou a ocupação desenfreada e, mais recentemente, com a irresponsabilidade do atual governo, ao incentivar predadores da floresta e afrouxar a fiscalização. Claudio Angelo lembrou que a ótica do governo militar é a mesma do governo Bolsonaro, uma teoria conspiratória que situa a Amazônia como objeto de cobiça por parte de potências estrangeiras. Então, ocupar sem planejamento, abrir estradas e não combater, e até incentivar, o desmatamento torna-se uma política pública equivocada, cujos resultados desastrosos foram confirmados pelo INPE.

Nobre lembrou uma frase atribuída a um pesquisador da ESALQ em 1972, muito atual ainda hoje: “a ocupação da Amazônia seguirá as patas do boi”. Atual, e com um agravante: o desmatamento para plantio de soja. Os números oficiais mostram que, a cada 10 ha desmatados (ilegalmente ou não), em no máximo 10 anos, 3 ha são abandonados. Por outro lado, nem economicamente a pecuária é sustentável na Amazônia, pois o rendimento médio é de US$ 50 por hectare. Outro número, apontado pelo IBGE em 2017, mostra a possibilidade de existirem modelos econômicos de maior rentabilidade para a Amazônia. São eles: a coleta de açaí, cacau e castanha que rende R$ 7 bilhões anuais, utilizando 4 mil km2; já gado e soja renderam R$ 14 bilhões, mas a área (desmatada) utilizada foi de 240.000 km2. Lembrando que no primeiro caso não é necessário derrubar uma única árvore.

Nobre e outros pesquisadores lançaram um projeto em 2016, o Amazônia 4.0 para buscar uma alternativa para o desenvolvimento sustentável da região, destacando o papel que as novas tecnologias, que chegam irreversivelmente através da Quarta Revolução Industrial, podem desempenhar em fazer emergir o enorme valor tangível dos ativos biológicos e biomiméticos da biodiversidade. Estes valores estão ainda “escondidos” e precisam de ciência e tecnologia intensiva na região para torná-los uma realidade, aliados a maneiras inovadoras de aproveitamento do vasto conhecimento tradicional, respeitando a justa e correta repartição de benefícios com as populações locais detentoras deste conhecimento. É um modelo intensivo em recursos naturais, que busca conciliar a proteção dos ecossistemas em unidades de conservação, terras indígenas e reservas extrativistas com a chamada intensificação sustentável da agropecuária e a contenção dos desmatamentos causados pela expansão das fronteiras agrícolas e da mineração e hidroeletricidade.

Nobre aponta outro risco: a “savanização” da Amazônia. Há 20 anos ele formulou esta hipótese, em resposta aos desmatamentos e vem estudando como o aquecimento global pode influenciar a floresta tropical; é imperativo que o país reduza o desmatamento da Amazônia e do cerrado, aumente a participação de energias renováveis na matriz energética e invista na agricultura sustentável. Nobre afirmou que 70% das emissões de CO2 brasileiras vêm da agricultura, da pecuária e do desmatamento, comparado com a China, por exemplo, onde 80% das emissões são provenientes da queima de combustíveis fósseis.

Sobre o desmatamento na Amazônia, Marengo observou a falácia de quem corta árvores de 50 ou 100 anos justificando que vão compensar fazendo reflorestamento. O efeito dessa compensação é pequeno. As árvores vão demorar a crescer. O ideal é parar de desmatar e aumentar a área de floresta. Se houver medidas de mitigação intensa, talvez seja possível frear o aquecimento global em 1,5oC ou, no máximo, em 2oC. Com o aquecimento correndo solto, se a temperatura global aumentar mais que 4oC, entraremos no que chamamos de mudanças climáticas perigosas. Nesse caso, adaptar-se não será mais possível.

Jose Marengo defendeu que o Brasil, com seu enorme potencial, deve assumir maior protagonismo no combate ao aquecimento global A natureza está dando sinais aqui e no mundo todo. Os extremos climáticos estão cada vez piores. Basta lembrar das secas e enchentes na Amazônia. As pessoas percebem que o clima está mudando, fazem até piada sobre isso, como recentemente fez o chanceler brasileiro. Tentamos sempre explicar que as mudanças climáticas são um processo natural, mas que está sendo acelerado pela ação humana. Mas, com o aumento dos gases de efeito estufa e do desmatamento, o papel do homem nesse processo está cada vez maior. Isso as pessoas ainda não entendem direito. Talvez elas não entendam a base teórica por trás das mudanças, a atribuição de causas dessas mudanças que nós, cientistas, adotamos. A mensagem principal, a de que o clima está mudando, é entendida agora. Não é necessário esperar até 2050 para isso ficar claro. Os invernos e os verões estão mais intensos. Os idosos podem morrer em consequência de ondas de calor. Isso já ocorre na Europa onde a população está mais adaptada ao frio. O ser humano e os ecossistemas podem suportar certos extremos. Se temos uma onda de calor e chegamos a 37oC ou 38oC, nos adaptamos: consumimos muito líquido, ligamos o ar-condicionado. Mas existe um limite. O problema da mudança climática é que ela pode ser mais rápida, forte e agressiva que a nossa capacidade natural de adaptação.

Ativistas ambientais, presentes ao encontro, pediram, aos palestrantes, informações sobre o micro-clima de São José dos Campos e a importância de preservar bosques e parques em nossa cidade, como o Bosque Betânia e o Parque Ema. Marengo lembrou que massas verdes são reguladores do clima e atenuadores de extremos climáticos. É necessário que a população se mobilize e fique atenta às alterações no Plano Urbano da cidade, de modo a se evitar a especulação imobiliária, tão danosa às regiões urbanas quanto é o desmatamento para a Amazônia. E manter bosques e reflorestar o máximo possível será vital para que nossas cidades tenham climas adequados e evitem a poluição industrial.

Encerrando os debates, Claudio Angelo fez a pergunta crucial para todos os palestrantes: O que podemos fazer?

Lúbia apontou a necessidade de termos argumentos sólidos para combater a desinformação e debater com os negacionistas e céticos climáticos. Segundo ela, a Ciência pode dar as respostas e os argumentos. Lembrou também que devemos, cada vez mais, nos preocupar em escolher lideranças políticas comprometidas com o conhecimento e a defesa do meio ambiente, destacando também nossas responsabilidades individuais de termos um consumo consciente.

Na mesma linha, Marengo destacou a importância de debates, como este, serem realizados com maior frequência, de modo a se atingir parcelas maiores da população. Acostumado a participar de audiências públicas na Câmara dos Deputados e no Senado Federal, Marengo ressaltou que a população tem nestes canais a oportunidade de acompanhar o posicionamento das lideranças políticas e destarte, cobrar deles maior engajamento nas políticas públicas que levem à queda das taxas de desmatamento, à utilização de políticas sustentáveis na Amazônia e à redução de emissões de CO2. Por último, Marengo fez questão de alertar: “mudança climática não é ideologia; ativismo é necessário.”

Vivemos no microcosmo de nossa urbe, mas as ações que tomamos individualmente, afetam o clima do planeta. Apesar da dificuldade de muitos países atingirem as metas de redução propostas na COP 15 de Paris, Nobre está otimista. Segundo ele, as transformações disruptivas em sistemas sociais são surpreendentes: quem iria imaginar que uma declaração infeliz do presidente Bolsonaro sobre o INPE e seu diretor iria desencadear um movimento nacional com repercussões internacionais a respeito do desmatamento na Amazônia e das queimadas na região? Ou ainda: quem iria imaginar que o ato da adolescente Greta Thunberg fazer greve pelo clima diante do parlamento sueco toda sexta feira à tarde iria mobilizar milhões de pessoas no mundo inteiro pelo mesmo objetivo?

Finalizando, Carlos Nobre fez referência ao livro A Espiral da Morte – Como a Humanidade Alterou a Máquina do Clima. Neste livro, vencedor do Prêmio Jabuti 2017 na categoria Ciências da Natureza, Meio Ambiente e Matemática, o jornalista Claudio Angelo viaja aos extremos da Terra para documentar os impactos da mudança climática. Numa mistura de reportagem, diário de viagem e relato científico, o autor mostra como o Ártico e a Antártida estão derretendo por causa das ações humanas e como isso impacta, desde animais icônicos como os pinguins e os ursos-polares, até os moradores de metrópoles brasileiras como Rio e Recife. A espiral da morte passeia entre agricultores esquimós, ursos esfomeados, ambientalistas presos, marinheiros heróis, os interesses da poderosa indústria do petróleo e cientistas que arriscam suas vidas nos locais mais inóspitos do mundo para desvendar o quebra-cabeças do aquecimento global. Nobre conclui: O planeta está à beira da espiral da morte. As mudanças climáticas e os danos por elas causados não são catastrofismos, mas realidade. Ciência não é ideologia, obscurantismo é ideologia do atraso e o risco que as mudanças climáticas possam gerar um planeta inabitável deve nos motivar a sairmos às ruas e exigir, dos governantes, mudanças nas políticas públicas.

Veja a íntegra do debate.

Debate: Amazônia em Foco - parte 01
Debate: Amazônia em Foco - parte 02
Debate: Amazônia em Foco - parte 03

 

 

 

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