Um grito tímido por socorro

in Clipping

Jornal da Ciência, 18 de setembro de 2017

Fabrício Souza Campos, secretário executivo da Sociedade Brasileira de Virologia e professor visitante da Universidade de Brasília, sobre as atividades no Congresso do dia 10 de outubro: “O que todos almejam é que este nosso grito tímido por socorro, cada vez repetido por mais vozes, ecoe nos ouvidos da nação e traga o digno apoio financeiro à pesquisa brasileira”

Estivemos reunidos no último dia 10 de outubro, juntamente com outras entidades científicas e acadêmicas e outros setores ligados à CT&I em Brasília, no Congresso Nacional, com a finalidade de pressionar os deputados e senadores a aprovarem mais recursos que o previsto para 2018, além de lutarmos por um maior descontingenciamento de recursos de 2017 para a CT&I e educação pública superior.

É um absurdo que tenhamos que fazer uma plenária para mostrar aos nossos ilustríssimos deputados a importância de se investir na ciência brasileira. Algumas das entidades ali representadas possuem pesquisadores que fazem pesquisas com HIV, zika vírus, dengue, febre amarela e outros vírus de importância para saúde humana, animal e vegetal. Estes destacados profissionais dependem de subsídios públicos para continuarem suas pesquisas. Cortar 44% dos recursos destinados à pesquisa significa paralisar experimentos importantes, sucatear uma estrutura já aquém da necessária, desvalorizar e ignorar um investimento público de anos para a montagem de laboratórios e na formação de recursos humanos, que, agora, podem deixar o País caso esta drástica situação não se reverta.

A diminuição do apoio federal à pesquisa terá sérias consequências para economia brasileira. Sem ciência não continuaremos líderes na exportação ou produção de nenhum produto agropecuário (soja, café, cana-de-açúcar, suco de laranja, carne de frango e bovina, entre outros). Com o cenário atual que se configura, da nossa antiga dependência da exportação desses produtos agrícolas para manter o equilíbrio da nossa balança comercial até a nossa defasada indústria (com poucas exceções), não investir em ciência é dar um tiro no pé.

Cabe salientar que outros países desenvolvidos ou em desenvolvimento (a exemplo da China, África do Sul e Índia) investem em ciência um percentual do PIB muito maior que o Brasil. Assim, na competição dentro dos BRICS, nós já ficamos para trás e continuaremos perdendo se não invertemos a lógica dos investimentos. O nosso país, ao invés de copiar programas desastrosos de estímulo à economia de países em crise (a exemplo da Espanha), deveria copiar o programa de fortalecimento à ciência implementado na Coreia do Sul, que, em 50 anos, alterou a realidade da população e consolidou o país como um dos líderes na produção de eletroeletrônicos e automóveis.

Contudo, foi importante visitar e participar ativamente de uma manifestação na chamada “a casa do povo”. Devido ao grande número de participantes, fiquei próximo à tela de registro de presença no plenário. Pude observar que mais de uma dezena de deputados simplesmente registraram a presença na sala e saíram. Assim, tivemos um total de 54 deputados “presentes”, um pouco mais de 10% do número total. Esta modesta participação, na verdade, reflete uma outra dura realidade brasileira: a ausência de nossos representantes eleitos nas sessões e o descompromisso com matérias absolutamente essenciais para o progresso do País. Além disso, ao defenderem interesses escusos e particulares em prol do atraso no avanço do Brasil, estão aprofundando o nosso subdesenvolvimento. A questão não é simplesmente escolher em que área investir. Nos corredores da “casa do povo”, encontrei muitos prefeitos de diferentes cidades brasileiras, cada um com a sua demanda. De forma alguma, quero dizer aqui que a nossa luta por mais recursos para a ciência é mais importante que o pedido de recursos para a construção de uma ponte vicinal. A questão é demonstrar que, senão investirmos em ciência agora, não teremos nenhum recurso no futuro.

Então, tudo passa pelo projeto de País que queremos. Sucatear as universidades públicas federais e estaduais não é de forma alguma o melhor caminho para sairmos dessa crise. Nelas estão o grosso da ciência feita a duras penas no Brasil, que nos colocou na 13ª posição do ranque mundial em produção científica. Posição que não manteremos e não recuperaremos tão cedo. Assim, é por todos os fatores levantados acima que muitos cientistas brasileiros estão vindo a público pedir um basta a esta precarização da ciência brasileira e também o reconhecimento desta importante parcela de profissionais que pode ter um papel decisivo na recuperação da economia brasileira. O que todos almejam é que este nosso grito tímido por socorro, cada vez repetido por mais vozes, ecoe nos ouvidos da nação e traga o digno apoio financeiro à pesquisa brasileira.

*O Jornal da Ciência publica esta semana manifestações das Associações Afiliadas da SBPC sobre as atividades em defesa da CT&I e educação realizadas no Congresso no dia 10 de outubro.