Entrevista com o Prof. Aldo Weber Vieira da Rosa, fundador do INPE

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São José dos Campos, em menos de 50 anos, passou da condição de pouco mais de uma vila para uma cidade que é referência mundial em desenvolvimento científico e tecnológico, abrigando desde fábrica de aviões e automóveis até as mais modernas indústrias químicas, eletrônicas e farmacêuticas.

Evidentemente que muitos contribuíram para que nossa cidade alcançasse esse estágio, mas dentre eles destaca-se a mente brilhante do Brigadeiro Aldo Weber Vieira da Rosa. Vindo para São José dos Campos em 1952 para lecionar no Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), onde foi professor até 1962, entre as inúmeras atividades que aqui desenvolveu destacam-se: Diretor do CTA, criador e Diretor por 7 anos do Instituto de Pesquisas e Desenvolvimento (IPD) do CTA, fundador e primeiro presidente da Comissão Nacional de Atividades Espaciais , hoje INPE, além de estar na origem da Neiva, fábrica que chegou a ter 800 empregados e equipou a FAB com o Regente e o treinador Universal (que foi exportado para outros países sul-americanos).

Como se percebe, o desenvolvimento industrial e tecnológico de São José dos Campos facilmente se confunde com a passagem deste catarinense de Florianópolis por nossa cidade.

Mas seu currículo abriga também posições de suma importância, como Presidente do CNPq, Presidente da Companhia de Desenvolvimento Tecnológico (CODETEC), em Campinas, SP, além da participação em Conselhos de Administração de importantes empresas nacionais e estrangeiras. Ele não diz, mas suspeitamos que mais do que qualquer título ou posição que ele galgou em toda a sua carreira profissional, do que ele mais se orgulha é ser nadador no programa de "Masters", com 41 recordes mundiais e 99 recordes americanos em vários estilos de natação, tendo sido eleito para o International Master Swimming Hall of Fame.

Atualmente com 86 anos, leciona na Universidade de Stanford (USA), a mesma universidade na qual obteve o seu PhD e onde é professor emérito.

O Professor Aldo gentilmente atendeu a solicitação do SINDCT para conceder uma entrevista, na qual conta um pouco de sua história, principalmente naquela parte em que ele contribuiu fundamentalmente para colocar São José dos Campos na privilegiada posição que hoje ela ocupa.

Entrevista com Professor Aldo

1.Na década de 40 o senhor foi enviado para a Stanford University fazer um curso de engenharia de rádio para a navegação área e acabou fazendo pós graduação em Harvard . O senhor poderia detalhar esta sua passagem pelos Estados Unidos e quais as dificuldades encontradas como estudante em Stanford e Harvard?


Em 1941 a marinha americana, num programa de aproximação com as forças armadas do nosso país, convidou 2 oficiais brasileiros para uma prolongada visita durante a qual serviriam numa base naval dos Estados Unidos. Por razão que nunca descobri, fui um dos escolhidos; o outro foi o então Capitão Hélio Costa. Durante parte do primeiro ano ficamos estacionados na Base Aérea Naval de Anacostia nos arredores de Washington, DC.

Logo após o ataque a Pearl Harbor, os Estados Unidos declararam Guerra ao Eixo. Isso não alterou a nossa situação, mas como o Hélio Costa desenvolveu uma forte alergia, fomos aconselhados a nos mudar para a Costa Oeste do país onde passamos a ser baseados na Base Aérea de Alameda, nas cercanias de Oakland, Califórnia. Passamos lá o resto dos quatro anos da nossa visita.

Os americanos logo descobriram que, se me mandassem para a frente de batalha, eles certamente perderiam a guerra. Consequentemente, me mantiveram na Califórnia e me deram missões de tal maneira limitadas que me sobrava um mundo de tempo livre. Como Alameda fica perto de Stanford, decidimos, Hélio Costa e eu, a aproveitar o tempo e entrar para a Universidade de Stanford. Ambos optamos pela engenharia elétrica.

Tendo passado a minha infância em Florianópolis onde, na época, falava-se tanto alemão como português, e sendo minha mãe natural da Alemanha, a minha primeira língua foi o alemão. Isso permitiu que eu freqüentasse a Escola Alemã local onde recebi a melhor instrução de todas escolas onde estive. Estudos secundários eu os fiz no Colégio Militar do Rio de Janeiro, outra excelente escola. Em contraste, o ensino na Escola Militar do Realengo era um pouco abaixo do medíocre. Foi assim que, com um preparo de menos de 4 anos de curso superior, apresentei-me a Stanford com pretensão de tirar um curso de pós-graduação. Combinamos que, se eu me desempenhasse bem no primeiro trimestre, eu seria de fato, aceito para pós-graduação. Os três primeiros meses em Stanford foram os mais duros da minha vida escolar mas tive sorte e continuei no nível que almejava. Após 2 anos de estudo fui enviado para Harvard onde existiam laboratórios adequados para as pesquisas de minha tese.

Hélio Costa e eu obtivemos o diploma de Electrical Engineer, um grau acima do mestrado e abaixo do PhD Recebi, mais tarde o PhD de Stanford. Nunca obtive um diploma de Harvard. Fiz pesquisas lá, mas os diplomas que recebi foram de Stanford.

Dificuldades não houve. O ambiente era grandemente acolhedor e o ensino e a oportunidade para a pesquisa tornavam a vida muito interessante.

2.Qual foi a sua participação na criação do ITA e do CTA?

Quando regressei ao Brasil após minha estada nos Estados Unidos, fui trabalhar na Diretoria de Rotas Aéreas (14/6/45) sob direção do Brigadeiro Eduardo Gomes. Na época, o Diretor do Material da Aeronáutica era o Coronel Casimiro Montenegro Filho. As duas diretorias compartilhavam do mesmo edifício no Aeroporto Santos Dumont. Montenegro tinha criado a Comissão de Organização do Centro Técnico de Aeronáutica (COCTA). Fui nomeado para participar dessa comissão (8/2/46) mas praticamente nada contribuí porque estava 100% ocupado com o meu trabalho na Diretoria de Rotas Aéreas. Só em 26 de junho de 1951 fui transferido para São José dos Campos, ostensivamente para servir no CTA "a fim de exercer as funções de Instrutor da Divisão Eletrônica no Instituto Tecnológico de Aeronáutica...", mas realmente para trabalhar junto a Direção Geral do Centro. Pouco depois de lá chegar, fui designado (em 17/9/51) para chefiar a Delegação Brasileira à Conferência Administrativa Extraordinária de Rádio-Comunicações em Genebra de onde só voltei em fins de dezembro. Assim, meu contato real com CTA começou, essencialmente, em princípios de 1952, quando o Centro já estava em funcionamento e bem instalado em São José dos Campos. Posso assim dizer que pouco ou nada contribui para a criação do CTA.

É oportuno fazer os comentários abaixo:

É mais fácil convencer o Congresso Brasileiro a aprovar uma verba para uma organização não existente, do que obter a aprovação de uma lei criando uma organização nova (a qual, inevitavelmente, nasceria emperrada por regulamentos pormenorizados que nossos legisladores gostam de impor). Não houve uma lei que especificamente criasse o CTA. Ele nasceu simplesmente porque uma verba --- "1.6.19.5 - Despesas de qualquer natureza com a operação do Centro Técnico de Aeronáutica" --- foi aprovada. Uma lei orçamentária não deixa de ser lei, e isso sancionou a criação do Centro. A flexibilidade dessa alínea orçamentária, absolutamente excepcional no nosso país, foi essencial para dar partida a uma organização destinada a romper com a tradição reinante. A incrível habilidade do Casimiro Montenegro para contornar as complicações de uma burocracia entrincheirada, foi uma das causas do sucesso do CTA. Tática semelhante ele usou para criar o ITA que, dentro da rotina normal, teria que ficar sob égide do Ministério da Educação, o que seria um golpe de morte para as idéias de criar uma escola moderna no Brasil. Quando o Ministro da Educação fez uma extensa viagem pela Europa, Montenegro aproveitou a oportunidade para obter a aprovação de um ITA dentro do muito mais arejado Ministério da Aeronáutica.

3.A instalação de institutos de pesquisas em torno do ITA foi uma concepção baseada nos grandes centros de pesquisas norte-americanos. Quem foi o idealizador desta idéia na criação do CTA?

Em traços gerais, a idéia que norteou o CTA foi inteiramente gerada pelo Brigadeiro Montenegro. O modelo do CTA não pode ser considerado como uma copia de instituições americanas. Foi mais uma adaptação de idéias americanas e européias às necessidades brasileiras.

4.O senhor foi professor do ITA na década de 50. Por quanto tempo lecionou lá e como era o ambiente acadêmico naquela época?

No que diz respeito ao ensino, houve de fato uma tentativa de adotar o modelo Americano que contrastava grandemente com a experiência brasileira. Para isso, foram importados professores dos Estados Unidos e um americano, com boa experiência no campo, Richard Smith, do MIT, foi nomeado o primeiro Reitor do ITA. O resultado foi a criação de um ambiente acadêmico muito mais livre e mais flexível que o dominante no Brasil naquela época. O ensino passou a ser mais pragmático, menos livresco. O espírito do corpo docente era excelente e entusiástico. A principal diferença entre as normas do ITA e as americanas foi a de oferecer um curso de graduação de cinco anos em vez de quatro.

Ensinei no ITA durante uns três ou quarto anos.

5.Em 1953 o senhor foi designado para a chefia do Núcleo de Pesquisas do CTA, que depois veio a se tornar o Instituto de Pesquisas e Desenvolvimento (IPD), atualmente incorporado ao Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE). Ou seja, o senhor está na origem do Programa Espacial Brasileiro. Qual era a visão dos técnicos, cientistas e administradores na época?

Se me permite uma digressão, gostaria de inserir aqui um comentário sobre o que acho ser o sistema ideal para a pesquisa num país em que impera a livre iniciativa.

A pesquisa fundamental, arma essencial para atrair bons professores e motivar alunos, deve ser conduzida na Universidade. Pesquisa fundamental em órgão do governo, só em casos excepcionais, quando razões de sigilo isso demandarem.

Por outro lado, o desenvolvimento tecnológico dever ser feito na própria indústria privada que vai comercializar o produto pois é difícil transferir tecnologia de quem a criou para quem vai produzir.

Um desenvolvimento tecnológico pode constituir um grande risco financeiro especialmente para as pequenas empresas privadas que são justamente aquelas que têm a maior capacidade de inovação. Para que a tecnologia venha a florescer entre nós, deve o governo reduzir esse risco através da emissão de contratos de desenvolvimento. A especificação dos contratos e o acompanhamento dos trabalhos não pode ficar nas mãos de burocratas, mas tem que ser feitos por pessoal científico competente que, para se manter atualizado, deve trabalhar em pesquisa. Esse é o racional para a existência de Institutos governamentais de pesquisa. Mas, não se pode perder de vista que a função precípua desses institutos é a de interagir com a indústria privada.

Dentro dessa filosofia, propus a fundação do Instituto de Pesquisas e Desenvolvimento (IPD) dentro do CTA.

O IPD se compunha de quatro departamentos correspondendo a quatro áreas de mais imediato interesse do Ministério da Aeronáutica:
Aeronáutica (PAR)
Motores (PAM)
Eletrônica (PEA)
Materiais (PMR)

Desses departamentos, longe o maior, era o PAR que congregava numerosas atividades distintas. Entre outras,

"Projeto Focke" incumbido do desenvolvimento de helicópteros e de convertiplanos. Esse projeto foi um pouco ambicioso demais para as condições brasileiras da época. Comentários sobre esse projeto e sobre as causas do insucesso, assunto de grande importância, não cabem aqui. Note-se que o Projeto Focke precedeu a fundação do PAR.

Homologação de aeronaves.

Contratação de projetos de desenvolvimento e comercialização visando o soerguimento da indústria aeronáutica brasileira. O PAR promoveu o renascimento dos aviões CAP-4 que passaram a ser conhecidos como Paulistinha e que foram industrializados em número elevado pela Neiva. Promoveu também o desenvolvimento na indústria brasileira de vários aviões que tiveram um certo sucesso comercial incluindo exportação. Foram comercializados aviões para observação (que equiparam as esquadrilhas de ligação e observação [ELO] da FAB); aviões para uso em agricultura; aviões para uso privado, tal como o Regente, um quadriplace que também foi adotado FAB; um avião de treinamento avançado apelidado "Universal" (ao custo de cerca de US$250.000 cada) que foi item de exportação e cuja produção atingiu 125 unidades.

O PEA desenvolveu equipamento para equipar estações de aerovias (por exemplo, transmissores de baixa potência, apelidados de "Minipot" que foram comercializados), equipamento para a comunicação em VHF para uso em aeronaves (eventualmente produzidos comercialmente pela firma Pontes e Morais) e outros equipamentos eletrónicos para a FAB.

O PMR desenvolveu processos para a extração de germânio e de gálio a partir do carvão de Santa Catarina. Naquela época, germânio, um material relativamente raro, era o único usado na fabricação de transistores. O silício veio mais tarde.

O PAM desenvolveu motores exóticos (pulso-jatos) que não chegaram à comercialização.

6.Em 1956 o senhor foi nomeado presidente do CNPq pelo presidente JK. À época esta instituição reunia grande parte dos pesquisadores do Brasil. Sua nomeação, por ser um militar, causou enorme descontentamento naquela órgão e o senhor sofreu uma série de ataques e difamações, como por exemplo, d´O Globo, que ironizou a sua nomeação com a seguinte nota: " A única notícia que se tem do coronel Vieira da Rosa, em matéria de ciência ou de técnica, é uma publicada ontem num vespertino: esteve nos Estados Unidos onde fez um curso de rádio e se inscreveu como passageiro no primeiro foguete interplanetário que fizer, daqui a cem anos, a sonhada viagem à Lua." O senhor poderia detalhar este episódio e comentar a sua passagem pelo CNPq?

Não posso dizer que enfrentei com prazer a campanha que fizeram contra mim quando fui nomeado presidente do CNPq. Por outro lado, confesso que ela tinha um certo fundamento. Na verdade eu não tinha credenciais científicos-ainda não tinha o meu PhD, e não tinha publicações sérias (em pequena parte porque durante a guerra, quando estudava em Stanford, não se encorajava publicar resultados de pesquisas). Se a situação fosse invertida, se eu fosse um cientista brasileiro e visse um militar assumir o Conselho, é bem possível que eu me tivesse aliado à campanha. A afirmativa do Globo de que eu me inscrevera numa lista como passageiro num foguete interplanetário, pode ter tido um certo valor como comédia, mas foi, obviamente, pura fantasia. No entanto, se tal lista de fato existisse, eu talvez a ela subscrevesse.

A campanha acabou abruptamente quando visitei o Brigadeiro Eduardo Gomes. que tinha muita influência com o editor do Globo. Ele pegou o telefone, na minha frente, e sugeriu, em termos bastante firmes, que seria boa idéia abandonar o assunto.

Quando aceitei a posição eu prometi a mim mesmo, um período de uns quatro meses para me ambientar e preparar um plano de ação. Porém um acidente na França terminou o meu mandato antes de ter firmado tal plano, mas intelectualmente eu já havia diagnosticado uma das dificuldades principais do Conselho. Dizia-se, naquela época (sem muito exagero) que o Brasil tinha mais aceleradores nucleares que físicos nucleares. De fato, havia um An der Graaf em São Paulo, um ciclotron em Niterói, um Cockrof-Walton no Rio. Claro que para avançar a pesquisa entre nós precisávamos aumentar substancialmente o plantel científico brasileiro. Isso sugeria um vigoroso programa de apoio às universidades e um maciço programa de bolsas no exterior.


7. O senhor é conhecido como o "o criador do INPE". Poderia nos contar como surgiu a idéia, como se viabilizou a sua criação e descrever a sua passagem como primeiro diretor do INPE?

Na percepção pública, a era espacial começou com o lançamento do satélite russo "Sputnik" embora antes disso já houvesse sociedades em muitos países reunindo entusiastas do assunto. No Brasil, a Sociedade Interplanetária Brasileira, SIB, promovia reuniões regulares para debater tópicos de interesse. Luiz Gonzaga Bevilaqua o presidente da SIB (e também o presidente do Aeroclube de Bauru) em conjunto com Tomás Pedro Bun, elemento muito ativo na SIB, animados pela publicidade criada pelo primeiro vôo extraterrestre, escreveram uma carta de três páginas para o então Presidente Jânio Quadros sugerindo que "o Brasil não poderia se omitir no campo das atividades espaciais". Caracteristicamente o Presidente enviou imediatamente a carta paro o Chefe da Casa Militar, General Pedro Geraldo de Almeida, com o despacho lacônico: "General, execute." Como a carta, na verdade, não propunha nada de concreto, não havia nada para executar. Calculo que o General tenha passado por momentos de indecisão, mas logo se lembrou de que eu, durante a minha curta passagem pelo Conselho Nacional de Pesquisas, tinha sido acusado de ter-me inscrito como "passageiro no primeiro foguete interplanetário" . Embora claramente fictícia, tal inscrição deu ao General uma oportunidade de passar o problema para diante.

Recebi um telex com ordem para ir a Brasília. Quando cheguei ao Palácio do Planalto, o General me mostrou a carta e perguntou "o que você acha que eu devo fazer?. Assegurei que o problema seria resolvido. Usando uma máquina de escrever da Casa Militar, e me lembrando da receita burocrática para atacar qualquer problema desconhecido, redigi uma sugestão para uma ordem presidencial criando um grupo para estudar o assunto. Dentro do estilo do Jânio Quadros, dei 45 dias para o grupo esboçar a posição do Brasil relativa aos problemas espaciais e propor um plano de ação. Sugeri a composição seguinte: pus o meu nome por ter sido o chamado pelo General, adicionei os signatários da carta (Bevilaqua e Bun), e, para presidente do grupo, propus o nome do Almirante Octacílio Cunha (então presidente o CNPq). Tínhamos assim dois civis e dois militares (Aeronáutica e Marinha). Para equilibrar a parte militar indiquei também um representante do exército que servia, na época, no Instituto Militar de Engenharia.

O Presidente, sem perder tempo, oficializou minha sugestão fazendo apenas uma modificação---eliminou o representante do exército. O "Grupo de Organização da Comissão Nacional de Atividades Espaciais" (GOCNAE) funcionou com quatro membros (um mais do que a fórmula ideal de três membros, dos quais um de férias e o outro doente).

O grupo passou a se reunir no terceiro andar do Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, local de fácil acesso para os membros que vinham de avião de Bauru, São José dos Campos e Rio de Janeiro. Muito deveu o grupo à colaboração de Paulo Tolle, um advogado especializado em Direito Espacial (e, mais tarde, Presidente do Senai em São Paulo).

Dentro do prazo de 45 dias preparamos um documento esboçando a rota que, julgávamos, o Brasil deveria tomar começando pela criação da Comissão Nacional de Atividades Espaciais (que mudou de nome para Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, INPE) para a qual fui nomeado presidente. Mas a CNAE não foi criada de imediato pois, nesse ínterim, Jânio Quadros pede demissão lançando o pais na confusão. Seguiu-se um período de intensos esforços para convencer o sucessor, João Goulart, a efetivamente aprovar a criação da CNAE.

Formada a CNAE, a primeira tarefa foi a de obter um local para o seu funcionamento. Como eu era Presidente da CNAE sem prejuízo das minhas funções no CTA, era imperativo que a Comissão se localizasse em São José dos Campos, de preferência nas cercanias do CTA. O Brigadeiro Montenegro concordou em ceder parte da área do Centro Técnico de Aeronáutica e obtivemos o beneplácito do MAer para tal cessão. Outra concessão feita por Montenegro foi permitir que o então Coronel Sérgio Sobral de Oliveira (futuro Prefeito de São José dos Campos) viesse a trabalhar comigo. É importante salientar a boa vontade de todas autoridades e o apoio entusiástico que recebi do MAer e, em particular do CTA.

Uma importante contribuição inicial que Sobral fez para o INPE foi a progressiva mudança da cerca que separava o CTA do INPE. Cada vez que eu voltava de minhas múltiplas viagens, a nossa área tinha crescido um pouco.

Lentamente, fomos erigindo os prédios que necessitávamos e iniciando modestamente nossas atividades. Para mim, a presidência da CNAE não era a realização das minhas ambições. Eu planejava, já há tempos, voltar para Stanford. Consequentemente, eu visualizava uma CNAE dirigida por um elemento bem atualizado no campo: o Fernando de Mendonça que, na ocasião estava terminando o seu PhD em Stanford. Infelizmente, o seu posto de Capitão, fazia com que elementos dos Ministérios militares, que tinham grande influência nos destinos da CNAE, se opusessem à nomeação do Mendonça para me substituir. Percebiam isso como uma função de Coronel ou de Capitão de Mar e Guerra, não de um mero Capitão. Felizmente, o Prof. Abraão de Moraes, num espírito de abnegação e cooperação aceitou o encargo de me substituir na presidência da CNAE até que o clima para a nomeação do Mendonça se tornasse mais favorável.


8. Depois de sua passagem pelo INPE são raras as referências sobre a sua atuação no país. O senhor ocupou outros cargos públicos no Brasil?

A presidência do INPE foi meu último cargo público no Brasil. Saí do INPE em 1963 diretamente para Stanford onde terminei o meu PhD em 1965 e onde leciono desde então. No momento (2004) sou professor emérito de engenharia elétrica e conduzo dois cursos sobre fundamentos de processos energéticos. No entanto não me desliguei completamente da nossa terra. Por muito tempo, passava a metade do ano nos Estados Unidos e metade no Brasil onde trabalhava na Universidade de Campinas e onde fundei a Companhia de Desenvolvimento Tecnológico (CODETEC). Só nesses últimos anos tenho permanecido o tempo todo em Stanford.

9. O senhor é um pioneiro do programa espacial brasileiro e deve ter acompanhado a sua evolução histórica. Como o senhor avalia o programa?

Todas vezes que visito o INPE me surpreendo em ver o magnífico compus que foi criado a partir do modesto começo em 1956. Mais ainda me surpreende a magnitude e o escopo das atividades em andamento hoje em dia. Não posso negar o orgulho que sinto por ter compartilhado um pouco na criação dessa organização. Lamento apenas que não fiz o necessário esforço para me manter realmente em dia com tudo que o INPE realizou e planeja para o futuro.

10. Recentemente foi divulgado o relatório oficial das investigações sobre as possíveis causas do acidente de Alcântara (http://www.sindct.org.br/vls-1_v03_relatoriofinal.zip). O senhor tomou conhecimento do relatório? Qual a sua opinião sobre o relatório e sobre as causas do acidente?

Quando penso nos nossos colegas que perderam a vida no acidente de Alcântara sinto a dor que isso causou a todos membros do INPE e CTA, principalmente aos membros das famílias dos que deram a vida pelo progresso da nossa terra.

Embora eu tenha lido o relatório do acidente, não tenho a arrogância de comentar sobre o mesmo. Espero apenas que tal acidente não venha a perturbar a marcha dos trabalhos que o INPE tem a executar.

11. O Programa Espacial Brasileiro deve continuar sob o comando militar? Como deveria ser a interação civil/militar? O senhor poderia falar sobre a experiência norte-americana nesta área e opinar se ela seria adequada ao Brasil.

Devemos ter grande seletividade no escolher aquilo que copiamos do estrangeiro. O modelo americano deve ser copiado por países com população e recursos idênticos aos dos Estados Unidos. Esse não é o caso do Brasil onde o nosso povo, em suas qualidades e seus defeitos, difere bastante dos norte americanos.

Mesmo na tecnologia, um campo relativamente simples, aquilo que funciona bem lá pode fracassar entre nós. Precisamos desenvolver a nossa própria tecnologia, uma apropriada para as nossas circunstancias. Temos pouco combustível fóssil, consequentemente devemos desconfiar da petroquímica. Temos grande potencial hídrico, consequentemente temos que pensar na eletroquímica. Temos área, temos sol e temos vento. Vamos esperar que outros aprimorem a tecnologia para seu uso para depois adquiri-la pagando direitos e royalties? Ou devemos almejar sermos nós mesmos os que cobram tais direitos e recebem tais royalties?

O programa espacial americano é o resultado de íntima cooperação entre NASA e o Pentágono. Mas, como disse, isso não justifica automaticamente um arranjo semelhante no Brasil. A cooperação entre as forças armadas e as entidades espaciais civis pode trazer uma grande eficiência. Pode também gerar ciúmes e atritos. Devemos, a cada oportunidade reexaminar essa colaboração. Precisamos faze-lo pragmaticamente pondo de lados predisposições emocionais. O acidente de Alcântara marca um dos vários momentos em que um tal reexame é oportuno.

12. O ambiente de excelência profissional gerado pela criação do CTA e do ITA transformou a cidade de São José dos Campos e o Vale do Paraíba em um pólo para o florescimento das chamadas tecnologias de ponta, sediando inúmeras indústrias. E principalmente com a criação da EMBRAER, tornou-se a principal referência da indústria aeroespacial do país. Com a atual crise econômica pela qual passa o Brasil, principalmente na questão da falta de empregos, o senhor acredita que aquele modelo já está superado? Qual seria uma alternativa para geração de empregos no Vale do Paraíba?

Grandes centros de cultura geram, automaticamente, em torno de si áreas de prosperidade. Stanford gerou o Vale do Silício. De maneira bem menor, CTA gerou o pólo industrial de São José dos Campos. Flutuações econômicas ocorrem e são inevitáveis, mas, enquanto o ITA for um centro de ensino de alta qualidade, o futuro a longo prazo da região está assegurado.

Entrevista elaborada por Acioli Antônio de Olivo, ex-diretor e colaborador do SindCT